O quilombo como práxis: sentidos e discursos da territorialidade Manga Iús no Cerrado Piauiense
DOI:
https://doi.org/10.46551/rc24482692202528Palavras-chave:
Comunidade Quilombola Manga Iús, Território como práxis, Territorialidade quilombolaResumo
O artigo analisa a territorialidade da Comunidade Quilombola Manga Iús, localizada no município de Batalha (PI), a partir da noção de território como práxis, entendida como processo histórico, relacional e discursivo, produzido por práticas materiais, simbólicas e políticas. Reconhecida pela Fundação Cultural Palmares em 2005, a comunidade permanece sem titulação fundiária, inserida em um regime prolongado de espera institucional. Nesse sentido, o presente estudo tem por objetivo compreender de que modo as práticas simbólicas, discursivas e cotidianas da comunidade Manga Iús sustentam e atualizam sua territorialidade em meio à indefinição jurídica do território. A pesquisa adota abordagem qualitativa, articulando História Oral e Análise Crítica do Discurso, com ênfase na categoria de prática social, a partir de entrevistas, observações de campo e análise de documentos técnico-institucionais. Os resultados demonstram que a territorialidade se ancora na ancestralidade, na oralidade, nos lugares de memória e em práticas agroecológicas, constituindo uma identidade coletiva em tensão com discursos jurídico-administrativos marcados por epistemologias excludentes. Conclui-se que as disputas territoriais configuram embates entre regimes discursivos antagônicos, exigindo inflexão epistemológica nos protocolos de regularização fundiária.
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