Histórias Curtas, de Rubem Fonseca: marginalidade contemporânea

Autores

  • Camila Alves da Silva Universidade Estadual de Montes Claros - UNIMONTES

Resumo

Comemorando os noventa anos de Rubem Fonseca, em 2015, temos a publicação do livro contos
Histórias curtas. A obra é composta por trinta e oito contos inéditos que, como o próprio título do
livro apresenta, são precisamente curtos. Para aqueles leitores desavisados, que desconhecem a escrita
fonsequiana, a figura de uma camisa de força na capa do livro adverte: loucuras da contemporaneidade em
apenas cento e setenta e quatro páginas.
Conhecido pela ficção chocante, cheia de brutalidade, sexo, escatologia e outras cenas pesadas, a
sua forma que causa repugnância e horror, é matéria literária de qualidade que rompe o convencionalismo
artístico. Desenvolvendo personagens em páginas perturbadas, imundas, marcadas pela violência e loucura,
a desliteralização é sua marca, desconstruindo a imagem que temos do “ser humano”.
Para o leitor que acompanha o desenvolvimento da escrita de Fonseca, Histórias curtas aparenta
ser mais do mesmo das últimas publicações realizadas pelo autor, muito distante de Feliz Ano Novo (1975),
que apresentava uma fratura exposta da sociedade durante o regime militar, e de O caso Morel (1973), seu
primeiro romance policial.
Mas para os olhares mais atentos, um novo tema se destaca dentro do hall das possibilidades
sórdidas, normalmente utilizadas pelo escritor. Nesta coletânea estão presentes vários contos que tratam da
velhice e da degeneração que a acompanha.
Um dos contos, que chama atenção por conter algumas semelhanças com a atual condição do
autor, “O mundo é nosso!” (p. 55), narra a história de uma senhora idosa, com seus setenta e dois anos de
idade, que questiona a atuação dos idosos na realidade social atual. Quando diz “Esqueci de dizer que uso
para andar uma muleta de antebraço. Essas muletas são, geralmente, menos incômodas que as axilares. Mas
isso não tem nada a ver com a minha idade [...]” (p.56). Atualmente, Rubem Fonseca, apesar de ainda forte,
trás em sua companhia uma muleta, como a descrita pela personagem, devido a um problema de artrose nos
joelhos, diagnosticado há quatro anos. A personagem, ainda, expõe o seu problema “[...] É melhor fraturar
o braço, a cabeça, qualquer parte do corpo, menos o joelho. Joelho não tem cura, fiquei capenga para o resto
da vida.” (p. 56). Ainda observa que, apesar da realidade de nossa sociedade estar envelhecendo mais, ou
seja, o número de idosos tende a ser maior do que de jovens, a mídia não foca neste nicho em propagandas,
produtos, lazer, etc.
1 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Letras/Estudos Literários do Departamento de Comunicação e Letras
do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES.
REVISTA UNIMONTES CIENTÍFICA
Montes Claros, v. 18, n.1 - jan./jun. 2016. (ISSN 2236-5257)
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Neste mesmo conto, temos a recorrente figura do “Papai Noel”, comum nas obras de Rubem
Fonseca, desde Lúcia McCartney (1967). Esta é uma figura fora do lugar, um personagem estranho em
nossa “realidade”, assim como os demais personagens criados por Fonseca e que são cuidadosamente
observados por ele nas calçadas cariocas e recriados em sua ficção.
Doentes mentais, assassinos, canibais, prostitutas, gordos, aleijados, drogados, traficantes, ladrões,
velhos, todos aqueles que margeiam a sociedade estão presentes neta obra. E o mais inquietante é que o
autor agora se inclui nesta sociedade. Se antes deixava transparecer a sua vivência no meio policial através
de sua escrita, hoje deixa transparecer os seus noventa anos em uma sociedade jovem e inexperiente.
Escrito como que no espelho, Histórias curtas interroga a si mesmo, baralhando esses temas
e revelando a crise das certezas, própria da contemporaneidade. Neste jogo do espelhamento entre as
posições do autor, do personagem e do leitor é que a fantasia volta para desregular a boa relação da ordem
do discurso, recusando-se a divisão que organiza a ficção dentro da realidade, quebrando a convenção
do relato.
Retomando a passagem de “Intestino grosso”, de Feliz Ano Novo (1975), “Nenhum escritor gosta
realmente de escrever. Eu gosto de amar e de beber vinho; na minha idade eu não deveria perder tempo com
outras coisas, mas eu não consigo parar de escrever. É uma doença” (p. 144). A escrita parece provocar em
Fonseca um efeito catártico, de alívio de tensões e pressões, referindo-se, especialmente, a forma livre de
expressar palavrões e outras angustias.
Histórias curtas é a quintessência desse estilo que acompanha o autor desde sua primeira publicação
- Os prisioneiros (1963). A obra possui um dialogo intimo com os livros publicados anteriormente que
atualiza a linguagem e seus temas. Assim, Rubem Fonseca mostra como rompeu com o preconceito do
meio intelectual sobre as narrativas policiais, tornando-se respeitado pela crítica e dando status ao gênero.

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Referências

FONSECA, Rubem. Histórias curtas. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

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Publicado

2020-12-06

Como Citar

ALVES DA SILVA, C. . Histórias Curtas, de Rubem Fonseca: marginalidade contemporânea. Revista Unimontes Científica, [S. l.], v. 18, n. 1, p. 92–93, 2020. Disponível em: https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/unicientifica/article/view/1910. Acesso em: 19 jun. 2024.

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