A ASCENSÃO DAS COMUNIDADES TERAPÊUTICAS NO BRASIL E AS IMPLICAÇÕES DE GÊNERO

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Autores

  • Débora Regina Amaral Unimontes

Palavras-chave:

Comunidades Terapêuticas, Gênero, Saúde Mental

Resumo

O presente estudo é resultado de uma pesquisa que foi realizada através de uma análise sobre os meandros que envolvem a atuação das “Comunidades Terapêuticas” (CTs) no Brasil. Este debate se insere no campo da saúde mental, mas é atravessado por diversos outros campos. Tendo em vista a complexidade que envolve a temática, privilegiou-se a análise pela perspectiva de gênero. As (CTs) compõem a oferta pública de cuidados às pessoas que fazem uso prejudicial de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Contudo, guardam semelhança com outras organizações que historicamente têm prestado assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade social como abrigos, hospitais filantrópicos, entre outros, com base em valores cristãos da caridade e solidariedade. O percurso metodológico se deu por meio da revisão de literatura, bem como pesquisa documental a partir de normativas acessadas nos sites de órgãos oficias disponíveis nos meios digitais. Os resultados da pesquisa demonstram que vem ocorrendo no Brasil um desmonte da política de saúde mental que foi arduamente conquistada com as lutas populares desde o processo da ainda vigente Reforma Psiquiátrica. Porém, as (CTs) têm conquistado subsídios e apoio de diversas frentes conservadoras e hoje foram legalmente incorporadas à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS). As implicações de gênero são devidas as (CTs) serem estruturadas na sua maioria para atender aos homens e maiores de idade, logo, uma enorme fatia dos recursos públicos que deveriam ser investidos nos serviços de base territorial seja ele do SUS, assistência social e outros, para todas as pessoas inclusive as mulheres, têm sido destinados para essas instituições, é certo que não há registros de destinação de recursos do Fundo Nacional de Saúde (FNS) para as (CTs), mas o movimento de apoio governamental a essas instituições tem promovido um silenciamento sobre o cuidado em saúde mental da mulher. Por fim Gênero aqui é compreendido como um potente determinante social e, por não ser considerado neste processo, contribui para perpetuar a histórica desigualdade entre os gêneros, inclusive no acesso aos serviços de saúde.

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Publicado

2022-08-08

Como Citar

Amaral, D. R. (2022). A ASCENSÃO DAS COMUNIDADES TERAPÊUTICAS NO BRASIL E AS IMPLICAÇÕES DE GÊNERO: VELHOS CAMINHOS NÃO LEVAM A NOVAS PORTAS. Revista Serviço Social Em Perspectiva, 6(Especial), 665–686. Recuperado de https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/sesoperspectiva/article/view/5653

Edição

Seção

Mesa Coordenada Temática - Gênero, Raça e Classe: Convergências na Produção e Reprodução das Desigualdades