https://doi.org/10.46551/issn2179-6807v29n2p114-127
Vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
ISSN: 2179-6807 (online)
UTOPIA E DISTOPIA NAS LETRAS PÓS-MODERNAS: UMA ANÁLISE DE
“ELES ERAM MUITOS CAVALOS”, DE LUIZ RUFFATO
Andréa Nogueira do Amaral Ferreira1
Recebido em: 29/10/2023
Aprovado em: 20/12/2023
Resumo: O rompimento com as tradições e o desaparecimento do sentimento de história
fizeram com que o novo tecido social começasse a perder, aos poucos, a necessidade de
guardar o passado e passasse a viver um presente contínuo. Esses sinais podem ser observados
na arte, na literatura e na dinâmica social como um todo, assim como revelam o momento de
esgotamento do projeto moderno de sociedade e o avanço de uma nova ordem social
proveniente das condições pós-modernas. Neste sentido, este artigo propõe analisar utopia e
distopia no romance “Eles eram muitos cavalos”, de Luiz Ruffato, como aspecto legitimador da
pós-modernidade, assim como o pastiche proposital utilizado pelo autor como forma de
revelar a realidade social contemporânea. Para isso, verifica as características da modernidade
na obra de Oswald de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar e a trajetória para
chegar a pós-modernidade revelada na narrativa de Luiz Ruffato, além de apresentar o
consumo como triunfo da pós-modernidade e causador importante de utopia e distopia na
obra.
Palavras-chave: Pós-modernidade. Consumo. Literatura. Utopia e distopia
UTOPIA AND DYSTOPIA IN POSTMODERN LETTERS: AN ANALYSIS OF THEY WERE MANY
HORSES”, BY LUIZ RUFFATO
Abstract: The rupture with traditions and the disappearance of the feeling of history meant
that the new social fabric began to gradually lose the need to keep the past and began to live in
a continuous present. These signs can be easily observed in art, literature, and social dynamics
as a whole, as well as revealing the moment of exhaustion of the modern project of society and
the advance of a new social order arising from postmodern conditions. In this sense, this article
proposes to analyze utopia and dystopia in the novel They Were Many Horses, by Luiz Ruffato
as a legitimizing aspect of postmodernity, as well as the purposeful pastiche used by the author
as a way to reveal contemporary social reality. To this end, it verifies the characteristics of
modernity in the work of Oswald de Andrade, Memórias Sentimentmentales de João Miramar,
and the trajectory to reach postmodernity revealed in the narrative of Luiz Ruffato, in addition
to presenting consumption as a triumph of of postmodernity and an important cause of utopia
and dystopia in the work.
Keywords: Modernity. Consumption. Literature. Utopia and dystopia.
1Doutoranda em Desenvolvimento Social e mestre em Letras/Estudos Literários pela Universidade
Estadual de Montes Claros (Unimontes). Coordenadora e professora do curso de Comunicação Social -
Publicidade e Propaganda do Centro Universitário FIPMoc (UNIFIPMoc). E-mail:
andrea19amaral@gmail.com. ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-2644-3542.
114
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
UTOPÍA Y DISTOPÍA EN LAS LETRAS POSMODERNAS: UN ANÁLISIS DE THEY WERE MANY
HORSES”, DE LUIZ RUFFATO
Resumen: La ruptura con las tradiciones y la desaparición del sentimiento de la historia hizo
que el nuevo tejido social comenzara a perder paulatinamente la necesidad de conservar el
pasado y comenzara a vivir en un presente continuo. Estos signos pueden observarse
fácilmente en el arte, la literatura y las dinámicas sociales en su conjunto, además de revelar el
momento de agotamiento del proyecto moderno de sociedad y el avance de un nuevo orden
social surgido de las condiciones posmodernas. En este sentido, este artículo se propone
analizar la utopía y la distopía en la novela de Luiz Ruffato Eran muchos caballos como aspecto
legitimador de la posmodernidad, así como el pastiche intencionado utilizado por el autor
como forma de revelar la realidad social contemporánea. Para ello, verifica las características
de la modernidad en la obra de Oswald de Andrade, Memorias sentimentales de João Miramar,
y la trayectoria para llegar a la posmodernidad revelada en la narrativa de Luiz Ruffato, además
de presentar el consumo como un triunfo de la posmodernidad y una causa importante de
utopía y distopía en la obra.
Palabras clave: Posmodernidad. Consumo. Literatura. Utopía y distopía.
INTRODUÇÃO
muitas discussões sobre as implicações da pós-modernidade na sociedade
dos grandes centros urbanos. Nesses locais se desenvolvem as relações de
sociabilidade, funcionando como um laboratório de troca de experiências, em que se
concretizam os variados aspectos da vida social. Lugares esses onde a vida de fato
acontece e carrega as diversidades, assim como as desigualdades políticas,
econômicas, culturais, religiosas e outras.
Para Ianni (2003), as cidades são verdadeiros símbolos da modernidade, são
laboratórios, lugares de troca de experiências e onde nascem as ideias de
descontinuidade, fragmentação, assim como de alienação e desencantamento do
mundo. Os efeitos do sistema capitalista e da industrialização podem ser vistos na
cidade.
É na cidade grande que aparece a multidão, a massa ou a turba, assim como
o líder, dirigente, demagogo, condottiere. se formam o cidadão e a
cidadania, o solitário e a solidão, o radical e o fanático, o suicida e o profeta,
o artista e o cientista, assim como o aventureiro, o blasé, oflâneur (IANNI,
2003, p. 125).
Nesses espaços convivem o tradicional e o contemporâneo, a multidão e a
solidão, assim como descontinuidade e fragmentação, observados simultaneamente na
115
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
produção literária.
A obra “Eles eram muitos cavalos”, de Luiz Rufftato2, apresenta ao leitor
episódios da sociedade contemporânea. A narrativa fragmentada transcorre no dia 09
de maio de 2000 e traz à tona histórias de pessoas da cidade de São Paulo, trazendo
como proposta a realidade vista de diversas lentes, o que acaba por desvelar as
mazelas do cotidiano.
O título da obra retoma um verso do poema de Cecília Meireles citado na
epígrafe do livro: “Eles eram muitos cavalos, mas ninguém sabe mais os seus nomes,
sua pelagem, sua origem.... O autor faz uma analogia ao seu anonimato na narrativa e
ao anonimato dos personagens que representam a população da cidade de São Paulo.
A obra em formato de mosaico traz flashes de diversas histórias de vida dos habitantes
de São Paulo, com personagens estilisticamente desumanizados no espaço urbano
contemporâneo marcado pela aceleração, imediatismo e fragmentação do espaço
social. O autor parece querer captar o momento, o mundo que acontece agora.
É como se uma câmara pudesse estar em vários lugares da cidade de São Paulo,
ao mesmo tempo, transmitindo todas essas condições narradas nos mais variados
estilos. Para ilustrar esse espaço contemporâneo, o autor lança mão de inúmeros
gêneros no decorrer da obra, como salmos, receita culinária, recortes de jornais,
anúncios publicitários, orações, cartas e tantos outros.
Esses recortes, assim como o trabalho com a tipografia, utilizados pelo autor,
trazem uma leitura inusitada e muito interessante, pois, se por um lado os episódios ou
capítulos podem ser lidos separadamente sem que se perca o sentido, por outro lado
fazem todo o sentido quando lemos sem interrupção, que apresenta a sociedade
moderna fragmentada, com suas fraquezas, problemas, o dia a dia, a exaustão de
tantas informações recebidas, o trânsito caótico e toda essa mistura forma um espaço
único e ao mesmo tempo heterogêneo.
Em “Eles eram muitos cavalos”, distopia e utopia3dialogam no universo da
3Os conceitos de utopia e distopia foram trabalhados na perspectiva de Gregory Claeys (2013) e Thomas
More (2000).
2Luiz Fernando Ruffato é romancista, cronista e poeta, nascido em Cataguases, Minas Gerais. Para
críticos e historiadores, a obra de Ruffato nasce do projeto de dar visibilidade à classe média baixa, o
operariado brasileiro. Eles Eram Muitos Cavalos, lançado em 2011, foi saudado pela crítica como um dos
mais importantes livros da ficção brasileira contemporânea e vencedor do prêmio da Associação
Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Machado de Assis.
116
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
cidade de São Paulo. A narrativa apresenta rapidez nas ações dos personagens, mas o
tempo parece estagnado, não espaço para progresso ou esperanças de que algo
poderia ser diferente, sendo cada história apenas mais uma na megalópole cruel e
anônima. Entretanto, as orações, a leitura do horóscopo, o trecho de um salmo,
parecem um alento, um olhar no futuro, um propósito de colocar o leitor na
possibilidade de sonhar uma nova história. Observe o trecho abaixo:
7. 66
A vibração do número de hoje estimula a realização dos
aspectos materiais da vida
(mais dinheiro e prestígio)
pode contar com a ajuda de
um amigo influente
pode receber uma promoção
ou herança:
o momento é para ser prático e objetivo (RUFFATO, 2007, p,20).
O fragmento traz o gênero horóscopo como uma possibilidade de esperança,
uma expectativa de melhora no meio do caos.
Para Oswald de Andrade (1970), nas utopias não somente um sonho, mas
também um protesto, anseio de romper a sociedade vigente. Agora se concede
direito de cidadania ao sonho, ou seja, à utopia que precede transformações sociais. O
confronto entre utopia e distopia pautam entre uma história e outra, e assim, leva ao
leitor sensações múltiplas e retratos de uma sociedade dentro das cidades grandes.
Percebem-se aqui as provocações da literatura diante da realidade presente no chão da
sociedade e, isso, acende questionamentos sobre as possibilidades de uma literatura
transgressora, capaz de infiltrar no leitor novas perspectivas e visões de mundo.
CONTEXTOS PÓS-MODERNOS
O rompimento com as tradições e o desaparecimento do sentimento de história
fez com que o novo tecido social começasse a perder aos poucos a necessidade de
guardar o passado e passasse a viver um presente contínuo. Esses sinais podem ser
facilmente observados na arte, na literatura e na dinâmica social como um todo, assim
como revelam o momento de esgotamento do projeto moderno de sociedade e o
117
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
avanço de uma nova ordem social proveniente das condições pós-modernas.4
Novos tipos de consumo; a obsolescência planejada; um ritmo cada vez
mais rápido de mudanças na moda e no estilo, a penetração da propaganda,
da televisão, dos meios de comunicação em geral num grau até então sem
precedentes em toda a sociedade; a substituição da velha tensão entre
cidade e campo, centro e província, pelos subúrbios e pela padronização
universal; o crescimento das grandes redes de auto- estradas e o
aparecimento da cultura do automóvel: esses são alguns dos traços que
parecem marcar uma ruptura radical com a velha sociedade do pré-guerra,
na qual o modernismo canônico ainda era uma força clandestina (JAMESON,
1993 , p.43).
A emergência de um novo momento do capitalismo tardio despertou o pós-
modernismo e seus reflexos nas relações sociais. Entre eles, estão as rupturas e as
descontinuidades apoiadas na negação da tradição e na cultura do novo.
O capitalismo, portanto, passa a ser responsável pela revolução nas sociedades
quando o crédito se tornou possível, e assim, a moral sede lugar aos impulsos de gastar
desenfreadamente e satisfazer a todos os desejos em instantes. Para Lipovetsky (2005),
os efeitos da pós-modernidade e do consumismo de massa, são uma cultura centrada
na realização do eu, na espontaneidade e no deleite, em que o hedonismo se torna o
princípio crucial desse novo sistema.
Quando cada indivíduo percebe a sensação de ser o centro de sua vida, os
prazeres sentidos e vividos transformam-se em prioridade. O prazer e o estímulo de
sentidos passam a ser os valores dominantes da vida comum. Lipovetsky (2005)
acrescenta que a revolução do consumismo, que se garantiu após a Segunda Guerra
Mundial, foi um marco para a realização definitiva das sociedades pós-modernas.
A era do consumismo gerou muitas mudanças nos valores e tradições,
tirou o indivíduo do local de origem e da estabilidade da vida cotidiana e foi entregue a
um desfrute generalizado, à velocidade da moda, à flutuação dos princípios e dos
status.
Baudrillard (2003) ressalta que a felicidade constitui a referência absoluta para a
sociedade de consumo, revelando-se como salvação. Ele aponta que o mito da
4Conceitos utilizados a partir da perspectiva de Frederic Jameson (1993) e Gilles Lipovetsky (2005).
118
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
felicidade, nas sociedades modernas é pautado pela igualdade e que, nessa sociedade,
a mesma felicidade pode ser medida. A aquisição de objetos e signos leva à sociedade
democrática à intensificação do bem-estar. A sensação de bem-estar busca o princípio
da igualdade entre os homens, porém não a realiza a fundo, a liberdade individual fala
mais alto, gerando grandes desigualdades sociais e exclusões. Nesse viés, surge um tipo
novo de indivíduo, narcísico dessocializado por um lado e socializado à medida das
necessidades.
O consumo, triunfo da pós-modernidade, sobressai às páginas da obra de
Ruffato. No episódio 19, intitulado "Brabeza", um garoto planeja suas formas de
conseguir dinheiro para comprar o presente do Dia das Mães, certamente movido
pelas inúmeras divulgações da data nos meios de comunicação, sendo a mesma a
grande movimentação do comércio brasileiro.
Quatro tardes para o Dia das es e nem um puto no bolso. Tinha aviado
um rádio-gravador AM/FM CCE arrumado, ia adorar, ela que vive no
reclame, não tem com que de distrair... [...] Lugar para bater a carteira é Rua
Barão de Itapetininga, os caixas eletrônicos. O povo agarra o dinheiro, enfia
no bolso, na bolsa, desembesta arisco, assustadiço. [...] Dependendo, três
viagens arrecada o suficiente para comprar o rádio-gravador e comer com o
troco um Big-Mac... (Ruffato, 2007, p.44-45).
Além desse, outros fragmentos da narrativa sugerem o consumo, por meio de
nomes de empresas e produtos que também dialogam com linguagens de consumo,
como TV, jornal e cinema.
A sociedade se revolucionou com a produção em massa e o consumo. A busca
pelo prazer se transforma em valor principal na vida do indivíduo, o que acaba por
liquidar os valores e tradições. Tudo é permitido e as pessoas se sentem livre diante de
tantas ofertas, podendo assim, gozar a vida livremente. Tudo isso tende a diversificar
os gostos, reduzir as diferenças e assim legitimar todos os modos de vida e total
conquista de identidade.
Bauman (2008) revela que a sociedade seus integrantes na condição básica
de consumidores reforçando seus estilos de vida pautados em estratégias consumistas
e sendo assim, a mesma sociedade prepara seus indivíduos para isso, para
119
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
frequentarem espaços de compra, onde a classe alta reforça sua hegemonia e a classe
mais baixa luta para não ficar tão humilhada.
No fragmento 22 da narrativa de Ruffato, uma garota de 16 anos passa por uma
rua de comércio e se sente tentada a comprar: “Ah!, o de pedra vermelha no anular,
Hum..., o que lembra? Um esse, Lindo, princesa!, devolve, Ah!, não vai levar?, o tênis
cirurgicamente branco sorri, intimidada, Vai... leva... faço um desconto... o coração, Ui!,
desvencilha-se a tentação pespegante [...]" (RUFFATO, 2007, p.5 51-52).
Observa-se ainda no fragmento 22, um trecho em que mostra uma das
inúmeras formas de transformação do indivíduo em mercadoria: Princesa... quer
fazer um book? Bonita... Aqui, meu cartão... Truque mais besta! Fernanda, boba,
visgou na lábia, até foto pelada, Pra Playboy, Pra Globo, eta!” (RUFFATO, 2007, p.52)
Aparecer em revista, na TV é sinônimo de ser comentado, desejado, sair da
invisibilidade e captar o olhar do consumidor.
Bauman (2008) traz alguns estudos sobre a transformação do homem em
mercadoria. Para ele as pessoas se vendem como sapatos, roupas e relógios, no intuito
de serem aceitas, de saírem do anonimato, da imaterialidade cinza e monótona da
sociedade contemporânea. Muitos trechos do romance Eles eram muitos cavalos
revelam indivíduos mercadoria. No episódio 42, intitulado "Na ponta do dedo (2"), o
autor lista um amontoado de nomes de pessoas, com suas características físicas e
psicológicas, como se estivessem em uma vitrine, se oferecendo ao consumo. Na
realidade, a sociedade pós-moderna não promove apenas o consumo de produtos,
pessoas, mas também o consumo de informações exacerbadas pela mídia.
As grandes cidades são uma síntese da sociedade, é onde o indivíduo por
excelência se aloja. A sociabilidade, a privacidade, os grupos sociais, a população, as
revoluções, democracia, a autocracia se desenvolvem e se embaralham nas grandes
cidades, pois elas são o esteio da pós-modernidade. Ianni (2003) aponta que nas
cidades se pode observar como a máquina do mundo fabrica não problemas e
soluções de todos os tipos, mas também doutrinas e teorias as mais diversas, como
pragmáticas e críticas, utópicas e nostálgicas. São reflexos da realidade social de um
tempo, compreendendo as diversidades e desigualdades políticas, econômicas,
culturais, linguísticas e outras.
120
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
UTOPIA E DISTOPIA
No contexto social, vivido no século XXI, parece impossível conceber a utopia,
diante dos fatos que veem confrontar tal conceito. Utopia, termo empregado por
Thomas More como expressão de todo desejo de reforma de toda a vida social, política
e religiosa dos europeus do século XVI, buscando a sociedade ideal. Para More (2000),
a imaginária Ilha da Utopia apresenta as cidades semelhantes em conteúdo e forma, o
que difere completamente das cidades contemporâneas, onde nada é homogêneo, e
se caracteriza principalmente pelas diferenças. O pós-modernismo traz as cidades com
configurações opostas, e na maioria das vezes impregnadas de pessimismo e
desencantamento.
As utopias, diante das narrativas, suscitam no leitor a observância dos
acontecimentos e projetação de uma nova história. E assim, nesse contexto, dialogam
momentos felizes, duradouros, tendo o otimismo como cerne, e o caos, o pessimismo,
a dor, a desumanização, apresentando a distopia como a falta de qualquer
possibilidade de refazimento do homem. Essas circunstâncias apresentadas no
decorrer de uma obra literária apresenta as possibilidades de construção da harmonia
entre um e outro e não objetivação da perfeição. Segundo Sargent (2005), a utopia não
foi concebida como uma representação da perfeição imutável, mas sim com objetivo
de melhorar a humanidade, não pela repressão e sim pelo aprimoramento, sem ter a
perfeição como finalidade, mas sim como propósito de mudança para enfrentar as
distopias atuais.
Na obra, o indivíduo se apresenta livre para fazer suas escolhas tendo à
disposição uma abundância de mercadorias e esse amontoado de opções parece
deixar o ser humano vulnerável e com tendência a angústia e depressão, somando a
isso, toda a mistura de sensações ocasionadas pelas contradições impostas à vida na
sociedade contemporânea. De um lado o indivíduo precisa trabalhar, ser pontual,
cumprir rigorosamente seus compromissos, mas por outro lado precisa aproveitar a
vida, sem perder tempo, o que acarreta uma permissividade em todos os sentidos.
Desestabilizado, esse indivíduo pós-moderno tende a buscar ajuda espiritual e tem a
sua frente um leque de opções, entre religiões, seitas, horóscopo e tantos outros.
Interessante notar que a obra de Ruffato é composta por esses tipos de fragmentos,
121
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
colocados provavelmente como forma de utopia, de esperança, em meio a tantas
aflições, diferenças sociais, informações e violência.
36. Leia o Salmo 38
leia o Salmo 38
durante três dias seguidos
três vezes ao dia
faça dois pedidos difíceis
e um impossível
anuncie no terceiro dia
observe o que acontecerá no quarto dia (RUFATTO, 2007, p.78).
Baudrillard (2003) acrescenta que a felicidade constitui a referência absoluta
para a sociedade de consumo, revelando-se como salvação. Ele aponta que o mito da
felicidade nas sociedades modernas é pautado pela igualdade e que nessa sociedade a
mesma felicidade pode ser medida. A aquisição de objetos e signos levava à sociedade
democrática a intensificação do bem-estar.
A sensação de bem-estar busca o princípio da igualdade entre os homens,
porém não a realiza a fundo, a liberdade individual fala mais alto, gerando grandes
desigualdades sociais e exclusões. Essas contradições trazidas por meio do consumo
são reveladas na narrativa de Ruffato. No episódio 26 com o título de "Fraldas"
podemos perceber as injustiças sofridas pelos indivíduos de classes mais baixas,
principalmente os negros, como no ocorrido com o homem barrado no
supermercado:
O segurança, negro agigantado, espadaúdo, impecável dentro do terno
preto, abordou discretamente o negro franzino, ossudo, camisa de malha
branca surrada calça jeans imundo tênis de solado gasto que empurrava o
carrinho-de-supermercado havia cerca de meia-hora - cinco pacotes de
fraldas descartáveis, uma lata de leite-ninho (RUFATTO, 2007, p.57-58).
Neste trecho, o homem tenta se defender, justifica estar desempregado com
um bebê em casa e revela ter ido ao supermercado conseguir ajuda de alguém e quem
sabe até um emprego, mas o segurança não o perdoa e o coloca para fora.
Essas oposições trazidas pela obra ressaltam um dos conceitos de utopia
trazidos por CLAEYS (2013), em que apresenta a impossibilidade de perfeição da
utopia, que o ser humano jamais alcançará. Sempre haverá fracassos, falibilidade e
122
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
imperfeições. Uma boa progressão seria uma sociedade melhorada, com sistema de
leis mais coletivista, com consentimentos mútuos, possibilitando uma comunidade
mais feliz e ordenada.
AS LETRAS BRASILEIRAS E A PÓS-MODERNIDADE
O modernismo que marcou o começo do século XX trouxe modificações
consideráveis à literatura impondo a renovação total e o ódio à tradição.
O modernismo, ou seja, essa nova lógica artística à base de rupturas e
descontinuidades, que se apóia na negação da tradição, na cultura da
novidade e da mudança. [...] é principalmente entre 1880 e 1930 que o
modernismo assume toda a sua amplitude com diminuição do espaço da
representação clássica, com o aparecimento de uma escrita desligada das
obrigatoriedades do significado regulamentar e, depois, com as explosões
dos grupos e artistas de vanguarda (LIPOVESTSKY, 2005, p. 61).
Para Ávila (2002) o Barroco e o Romantismo, movimentos que antecederam o
Modernismo foram representados, respectivamente, por apropriação da realidade e
posse da realidade, enquanto o Modernismo evoluiu para uma reflexão da realidade.
Foi o momento de questionar a linguagem, assimilar novas técnicas e repensar não
a originalidade da linguagem como também a realidade.
Ávila (2002) aponta Memórias Sentimentais de João Miramar como obra
protótipo da especificidade modernista, pois além da técnica de fragmentação, a obra
de Oswald de Andrade (1993) traz a novidade da linguagem cinematográfica em cortes
rápidos e simultâneos. A sátira social também pode ser destacada nesse contexto,
que a burguesia da época sofria grande assimilação da cultura européia. Ela sabe
falar quelque chose, eau chaude e beacoup d’argent (ANDRADE, 1993, p.72). Apesar
do estrangeirismo, podemos perceber expressões brasileiras e muitos valores nacionais
perpassam a obra. Os contrastes entre mundo europeu e o brasileiro mostra a busca
do autor em manter firme o manifesto da modernidade instaurado na época.
Para Souza (2002) essa estética se caracterizou por uma mudança nos
procedimentos artísticos inspirados nas vanguardas estrangeiras e na riqueza da
tradição cultural brasileira. Memórias Sentimentais de João Miramar se constrói a
partir dessas características, traz a tona a linguagem e modos estrangeiros, e os recria
123
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
traduzidos à nossa linguagem, uma mistura de valorização do primitivo com o novo,
com o surpreendente. O modernismo instaura uma rebelião contra as regras e valores
da sociedade burguesa para enaltecer os valores centrados na exaltação do eu. O
prazer, a valorização da própria imaginação são fatores que fazem do modernismo uma
cultura de personalidade.
Diferentemente do modernismo, as definições de pós-modernismo se misturam
e parecem nos levar a uma continuidade do modernismo ou talvez ao seu próprio
esgotamento. O que o modernismo trouxera de irreverente, subversivo é visto pela
nova geração como sem graça e com necessidade de ser renovado. Jameson (1993) nos
diz que um dos aspectos mais significativos do pós-modernismo é o pastiche.
O pastiche e a paródia são imitações, contorções estilísticas de outros, sendo
que a paródia coloca em destaque a singularidade desses estilos e aponta as
idiossincrasias de quem o faz, enquanto o pastiche é a paródia vazia, por não ter mais
nada de interessante a ser feito, onde a inovação estilística se tornou impossível. A
partir disso, poderíamos pensar na obra de Ruffato, Eles eram muitos cavalos (2007),
como um pastiche proposital da realidade contemporânea.
Não mais nada de novo a ser dito, e revelar a vida cotidiana de pessoas da
cidade de São Paulo faz parecer uma construção crítica da sociedade atual
desenvolvida pelo autor. E, é na utilização desse pastiche juntamente com as
possibilidades de novas formas propostas pela pós-modernidade, que Ruffato
consegue prender o leitor em seu romance embrenhado de histórias e gêneros.
O indivíduo contemporâneo apresentado pela narrativa é insvel, parece
oscilar entre tantos objetos e mensagens, o que fica evidente na obra literária, quando
os episódios se apresentam sem pontuação, com tipografias distintas, na forma
irregular da escrita. Insinua falta de compromisso com as regras, assim como o estilo
de vida dos personagens pós-modernos que compõem as histórias. A página em preto
quase ao final do livro é uma forma de expressar o cansaço de tantos tumultos
contemporâneos, ou quem sabe traduzir o vazio do ser humano oscilante, que muitas
vezes não tem o que contar e nada de novo a revelar.
Diante dos fatos, observa-se que a literatura vai se reconstruindo e criando
pontes com a realidade do seu tempo.
124
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
Os estudos literários passaram a fazer parte das ciências ditas sociais na
medida em que forneciam subsídios em nada desprezíveis para melhor
entendimento para melhor entendimento da história social, visto que o
próprio objeto de estudo, a literatura, representava mimeticamente a
estrutura da sociedade, fornecendo uma compreensão (ainda que não fosse
produto do conhecimento racional) da sua organização social e apontando,
com essa compreensão, um sentido para a direção do seu desenvolvimento
(SANTIAGO, 1978, p.251-252).
Porém, pensar na literatura pós-moderna, e em suas principais características,
como “fase de total liberdade de expressão” pode reabrir caminhos para uma volta à
tradição e quem sabe uma releitura transgressora, capaz de incitar a construção de
novos caminhos e não o reflexo dos caminhos atuais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O romance Eles eram muitos cavalos (2007) se mostra fragmentado, assim
como o indivíduo contemporâneo. Sem estabilidade, que parece oscilar entre tantos
objetos e mensagens e o mesmo pode ser evidenciado nas páginas da narrativa de
Ruffato quando seus episódios se apresentam sem pontuação, com tipografias
distintas, na forma irregular da escrita. Insinua falta de compromisso com as regras,
desencantamento, assim como o estilo de vida dos personagens pós-modernos que
compõem as histórias. Utopia de distopia transitam pela obra e reafirmam a
impossibilidade de perfeição e igualdade tão sonhada por Thomas More.
A página em preto quase ao final do livro é uma forma de expressar o cansaço
de tantos tumultos contemporâneos, ou quem sabe traduzir o vazio do ser humano
oscilante, desestabilizado. Lipovestsky (2005) aponta que o pós-modernismo vive uma
fase promocional, que seria a tentativa de se vangloriar da própria ausência de
acontecimento, de transformar em originalidade a situação sem originalidade.
A obra analisada retrata a vida cotidiana de pessoas da cidade de São Paulo, o
que parece afirmar o pensamento de Lipovestsky, porém o autor consegue ir mais
longe, pois além de trazer formas criativas para expressar essas histórias, nos prende e
nos faz enxergar a realidade, muitas vezes invisível aos olhos do ser humano
individualista produzido pela sociedade de consumo.
125
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
A mesmo as próprias obras são produzidas para serem consumidas, pois os
novos escritores produzem sem se preocupar em se tornar cânones. " [...}
interessa-lhes ter seus livros rapidamente publicados, traduzidos em línguas
hegemônicas, adaptados para o cinema e a televisão [...]" (PERRONE, 1998, p. 176). A
literatura não tem mais o papel que outrora, pois exige tempo, concentração, o que
não condiz com a sociedade atual e Perrone (1998) acrescenta que os autores
publicam livros light para serem consumidos mais rápido e que falta de ideias novas
e de fôlego para escrever grandes obras. A literatura parece sem coragem de se
reinventar e se torna fragilizada, perdendo a atividade cultural que um dia a
movimentou.
No entanto, Eles eram muitos cavalos consegue surpreender o leitor pela
irreverência na forma de narrar fatos tão corriqueiros e por conseguir entrelaçar
acontecimentos que traduzem a sociedade contemporânea. O ser humano
desestabilizado, oscilante produzido pela nova sociedade começa a questionar novas
possibilidades e mostra tendências a inovar a partir da realidade buscando trabalhar
com novos sentidos, talvez sem o propósito de criar rupturas, mas integrar arte e vida.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Oswald. Memórias Sentimentais de João Miramar. São Paulo: Editora
Globo, 1990.
ANDRADE, Oswald. Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
ÁVILA, Affonso. O Modernismo. São Paulo –SP: Editora Perspectiva, 2002.
BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. Tradução: Artur Mourão. Lisboa:
Edições 70, 2003.
CLAEYS, Gregory. Utopia: a história de uma ideia. Tradução Pedro Barros. São
Paulo: Edições SESC SP, 2013.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins
Fontes, 1985.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisas. São Paulo: Editora
Atlas, 1994.
IANNI, Octávio. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2003.
JAMESON, Frederic. O pós-modernismo e a sociedade de consumo. In: O
mal-estar no Pós-modernismo - Teorias e Práticas de E. Ann Kaplan. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1993.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo
contemporâneo. Barueri, SP: Manole, 2005.
MORE, Thomas. A Utopia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2000.
126
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/rds/
PERRONE, Moisés Leyla. Altas Literaturas: Escolha e valor na obra crítica de
escritores modernos. São Paulo: Companhia da Letras, 1998
RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. Rio de Janeiro: Record,2007.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência
cultural. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado
de São Paulo, 1978.
SARGENT, Lyman Tower. Em defesa da utopia. Trad. Irene Enes. An
Anglo-American Studies Journal, v. 1, p. 3-13, 2008.
SARGENT, Lyman Tower. Utopianism: a very short introduction.New York:
Oxford University Press, 2010.
SARGISSON, Lucy. Fool’s gold: utopianism in the twenty-first century.
Hampshire: Palgrave Macmillan, 2012.
SOUZA, Eneida Maria de. Crítica Cult. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
127
Revista Desenvolvimento Social, vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
PPGDS/Unimontes-MG