-https://doi.org/10.46551/issn2179-6807v29n2p94-113
Vol. 29, n. 2, jul/dez, 2023
ISSN: 2179-6807 (online)
“QUEM VAI QUERER SABER DA MINHA HISTÓRIA?”: REFLETINDO SOBRE
DECOLONIALIDADE COM ADOLESCENTES NA SOCIOEDUCAÇÃO EM
INTERNAÇÃO A LUZ DE ESTUDOS RACIAIS1
Ana Clara de Oliveira Peixoto2
Recebido em: 28/10/2023
Aprovado em: 20/12/2023
Resumo: A intencionalidade desta escrita é a de contribuir para o crescimento da discussão
sobre decolonialidade com adolescentes. A partir de autores que discutem a temática,
deseja-se aqui exemplificar através de plano de aula realizado com adolescentes internos do
Departamento de Gestão e Ações Socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro (DEGASE), como
é emergente pensar um olhar decolonial com adolescentes. Este trabalho pretende refletir não
apenas a partir de autores que são considerados no campo, como Palermo (2005), mas
também trazer tensionamentos de Segato (2021) que pensa a colonialidade como uma das
ferramentas principais para o encarceramento da população negra. Por fim, pretende-se
mostrar os efeitos que a abordagem sobre a temática teve nas concepções dos adolescentes
que cumprem medidas socioeducativas de internação, sobre raça, classe e gênero a partir do
conto “Rolézim” do escritor Geovani Martins (2018). Através da compreensão teórica destes e
de outros autores citados ao longo do artigo, somando a experiência prática em sala de aula,
será possível perceber que entender e aplicar decolonialidade na atuação enquanto
educadores e intelectuais, que pensam nas desigualdades presentes no tecido social, fará com
que seja possível construir ensinamentos sobre interseccionalidade e letramento racial com a
juventude marginalizada no Brasil.
Palavras-chave: Socioeducação. Decolonialidade. Adolescência. Interseccionalidade.
Letramento Racial.
“WHO WILL WANT TO KNOW MY STORY?”: REFLECTING ON DECOLONIALITY WITH
ADOLESCENTS IN SOCIOEDUCATION IN THE LIGHT OF RACIAL STUDIES
Abstract: The intention of this writing is to promote the growth of the discussion about
decoloniality with teenagers. Based on authors who discuss the topic, we wish to exemplify
here, through a lesson plan carried out with adolescent inmates of the Department of
Management and Socio-Educational Actions of the State of Rio de Janeiro (DEGASE), how it is
emerging to think about a decolonial perspective with adolescents. This work intends to reflect
not only on authors who are considered in the field, such as Palermo (1996), but also to bring
2Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestra em Educação (Linha
de pesquisa Estado, Trabalho-Educação e Movimentos Sociais) pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (2023). Graduada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (2020). Email:
anaclaraoliveira.peixoto@gmail.com. ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-6971-7307.
1O título em aspas faz menção a uma das falas dos educandos extraída dos diários de campo de
pesquisas e aulas realizadas pela autora do artigo entre os anos de 2018 até os dias atuais.
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tensions from Segato (2021) who thinks of coloniality as one of the main tools for the
incarceration of the black population. Finally, we intend to show the effects that the approach
to the theme had on the conceptions of adolescents who are socio-educational in deprivation
of freedom measures, about race, class and gender based on the short story “Rolézim” by
writer Geovani Martins (2018). Through the theoretical understanding of these and other
authors cited throughout the article, adding practical experience in the classroom, it will be
possible to realize that understanding and applying decoloniality in acting as educators and
intellectuals, who think about the inequalities present in this society, will make that it is
possible to build teachings about intersectionality and racial literacy with marginalized youth in
Brazil.
Keywords: Socioeducation. Decoloniality. Adolescence. Intersection. Racial Literacy.
“¿QUIÉN QUERRÁ SABER MI HISTORIA?”: REFLEXIÓN SOBRE LA DECOLONIALIDAD CON
ADOLESCENTES EN LA SOCIOEDUCACIÓN A LA LUZ DE LOS ESTUDIOS RACIALES
Resumen: La intención de este escrito es promover el crecimiento de la discusión sobre
decolonialidad con los adolescentes. A partir de autores que discuten el tema, se pretende
ejemplificar, a través de lección realizada con adolescentes internos del Departamento de
Gestión y Acciones Socioeducativas del Estado de Río de Janeiro (DEGASE), cómo es
surgiendo pensar en una perspectiva descolonial con los adolescentes. Este trabajo pretende
reflexionar no sólo sobre autores considerados en el campo, como Palermo (1996), sino
también traer tensiones desde Segato (2021) que piensa en la colonialidad como una de las
principales herramientas para el encarcelamiento de la población negra. Finalmente,
pretendemos mostrar los efectos que tuvo el abordaje del tema en las concepciones de los
adolescentes que pasan por medidas de internación socioeducativa, sobre raza, clase y género
a partir del cuento “Rolézim” del escritor Geovani Martins (2018). A través de la comprensión
teórica de estos y otros autores citados a lo largo del artículo, sumando la experiencia práctica
en aula, será posible dar cuenta de que comprender y aplicar la decolonialidad en el actuar
como educadores e intelectuales, que reflexionan sobre las desigualdades presentes en el
tejido social, hará que sea posible construir enseñanzas sobre interseccionalidad y
alfabetización racial con jóvenes marginados en Brasil.
Palabras-clave: Socioeducación. Descolonialidad. Adolescencia. Interseccionalidad.
Alfabetización racial.
ESTUDOS DECOLONIAIS: UM DIÁLOGO QUE PRECISA SER ACESSÍVEL
Tratar decolonialidade como diálogo é entender as premissas sobre as quais o
termo foi cunhado. Não ignorando a luta epistêmica que se travou e se trava a os
dias de hoje, inclusive nos espaços mais academicistas. A escolha desta escrita em
pensar o tema enquanto diálogo diz respeito a compreensão e trabalho contínuo que é
desenraizar o pensamento colonial no cotidiano dos adolescentes em privação de
liberdade.
De maneira geral, não é apenas esse grupo tratado nesta escrita que terá
necessidade de entender e aprender referências outras. Enquanto sociedade, inserida
no contexto da América-Latina, é possível perceber que o Brasil ainda precisa traçar um
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longo caminho no que tange assuntos como o pensamento decolonial, as interseções e
a consciência de nação que foi forjada a partir de expropriações do colonizador. É
debruçada no pensamento da antropóloga argentina Zulma Palermo que essa escrita
se baseia, quando diz que:
Pois se trata de um lugar político ao invés de cultural de produção de
significação que querem alternativas ao discurso colonizador como
empreendimentos antagônicos para a formação de um conhecimento outro
o que implica por isso subverter e substituir conhecer não para reproduzir
mas sim para transformar (PALERMO, 2005, p.23).
Ou seja, defender a decolonialidade como ação política é entender que o termo
não é apenas uma tendência. A expressão não deve ser apenas usada, como também
colocada em prática nas práticas educativas. Engana-se também quem acredita que
para ter atuação decolonial, o professor/educador precisa esboçar toda a teoria
decolonial para seus alunos/educandos. Evidentemente, se fará necessária base
teórica. No entanto, dificultar a compreensão do campo, unicamente para restringir
mais o debate a um grupo seleto, é conhecer para fazer reprodução de uma educação
excludente e não tentar transformá-la.
Pensar a construção de um diálogo que acessibilize é entender onde estamos
inseridos, até onde o discurso acadêmico chega, quem as publicações em periódicos
e o que fazer a partir de todo conhecimento obtido. Acessibilizar não é apenas tornar
público, mas é também entender que será necessário transformar esse conhecimento
em um discurso que chegue a população mais afetada pelas desigualdades sociais. bell
hooks (1994. p.22) em Ensinando a transgredir diz que: “Para lecionar em comunidades
diversas, precisamos mudar não nossos paradigmas, mas também o modo como
pensamos, escrevemos e falamos”. É de caráter emergencial que todo educador se
apoie nesse pensamento.
Neste artigo em questão, será realizada a reflexão desses pontos, a partir do
plano de aula “Decolonializando autores de livros”. Essa aula foi realizada no
Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE) do Estado do Rio de Janeiro,
na unidade de acautelamento3Centro de Socioeducação Gelson de Carvalho Amaral
3A unidade de acautelamento é a “porta de entrada” da socioeducação em internação. É onde acontece
a triagem dos adolescentes. Eles ficam acautelados até ser decidido se poderão responder o ato
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(CENSE-GCA). A partir deste encontro, será possível traçar paralelos e entender o que
esse texto defende sobre a importância de colocar a teoria em uma prática
acessibilitadora.
Antes de apresentar o plano de aula em questão, será apresentado alguns
dados do que confere a questão racial dentro do DEGASE. Também sinalizo ao leitor
deste trabalho que o plano de aula estará em primeira pessoa, que faz parte de um
episódio extraído de diários de campo dos cinco anos de aula e de educação popular
dentro do departamento.
RAÇA NA SOCIOEDUCAÇÃO EM INTERNAÇÃO
Segundo o relatório Trajetórias de vida de jovens em situação de privação de
liberdade no Sistema Socioeducativo do Estado do Rio de Janeiro” publicado em 2019
pelo Departamento Geral de Ações Socioeducativas em parceria com a Universidade
Federal Fluminense, sob coordenação de Cláudia Mendes e Elionaldo Julião, 45,9% dos
adolescentes no DEGASE se declaram pardos. A pesquisa foi realizada com um grupo
amostral em algumas unidades de internação no Estado do RJ, entre elas o PACGC4
(internação/ internação provisória feminina) e GCA (acautelamento).
(Extraído de: Trajetórias de vida de jovens em situação de privação de liberdade no Sistema
Socioeducativo do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: DEGASE, 2018.)
4Professor Antônio Carlos Gomes da Costa (Cense PACGC) - Unidade de internação feminina situada na
Ilha do Governador - RJ.
infracional de outra forma (outra medida socioeducativa) ou se a medida escolhida será a última que
consta na gradação do Estatuto da Criança e do adolescente: a internação. ( Lei 8.069, de 13 de julho
de 1990. Artº 122)
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No gráfico, observa-se que 76,2% dos meninos e meninas que estavam no
DEGASE entre 2018 e 2019 são negros. Contudo, é necessário olhar para além das
informações que gráficos e pesquisas quantitativas apresentam. Dizer isso, não é dizer
que números, gráficos, tabelas e porcentagens não são importantes, pelo contrário, é
fundamental que o pesquisador consiga obter o máximo de elementos que o ajudarão
a se aproximar da realidade do campo que ele está investigando, porém, é necessário
que haja algo além. A porque, sabe-se que dados quantitativos, podem ser usados
com o intuito neoliberal, reforçando um discurso meritocrático falacioso. Saber ler para
além dos dados, entendendo as intersecções presentes na sociedade é obter reflexões
mais realistas acerca da realidade.
Além de apurar faces mais profundas dos dados, é necessário pensar quem são
esses adolescentes de forma a enxergar além dos números. Michel Thiollent nos
apresenta a pesquisa-ação. Para o autor, a pesquisa-ação ...é realizada em um espaço
de interlocução onde os atores implicados participam na resolução dos problemas,
com conhecimentos diferenciados, propondo soluções e aprendendo na ação.
(Thiollent; Michel, 2002, p.4) Esse método de pesquisa se aproxima da conceituação da
pesquisa do afeto e tem relação profunda com o pensamento de transformação e
movimentação social que pensamentos como o feminismo de cor e o marxismo
defendem. Ainda sobre o que essa forma de investigação se propõe, Thiollent (2011)
diz que é
[] um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e
realizada em estreita associação com uma ão ou com a resolução de um
problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes
representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo
cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2011 p. 14).
Pesquisas realizadas dentro de ambientes em privação de liberdade terão
complexidades e questões específicas. Quando aplicações de questionários ou
entrevistas formais com os adolescentes, eles costumam se sentir acuados e entendem
que aquele momento é para a juíza decidir sobre a vida deles. É muito comum esses
adolescentes pensarem que os pesquisadores e grupos que estão desenvolvendo
algum tipo de atividade com eles, estão ali a mando da vara da infância, sendo assim,
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eles acabam se comportando, nos primeiros encontros, como se estivessem em uma
prova de moralidade.
Este relatório de pesquisa, assim como os outros, foi realizado entre uma
universidade em parceria com o DEGASE. Em 2017 a Universidade Federal Fluminense
também realizou em parceria com o MPRJ relatório sobre o perfil dos adolescentes na
socioeducação. Os dados, que mostraram resultados parecidos com esse, não
possuíam perguntas sobre a cor/raça dos internos. É possível compreender que
pesquisas como essas têm prazo para serem cumpridas, logo, não será possível discutir
as perguntas com os entrevistados. Contudo, estamos tratando aqui de adolescentes
que em sua grande maioria evadiram do sistema escolar público. Jovens que não
discutiram questões raciais.
Sabemos que um movimento muito forte de professores, militantes e
pesquisadores para fazer valer a leiº 10.639 de 9 de janeiro de 2003, nas escolas.
Mesmo assim, o racismo estrutural faz com que o imaginário racial nesses espaços seja
tratado, tantos nos livros didáticos quanto em eventos educativos, da velha forma: o
negro e o indígena escravizados. A história do Brasil é cunhada em cima de
apagamento de etnias não brancas. Em “O genocídio do negro brasileiro - processo de
um racismo mascarado” Abdias do Nascimento (1977) reflete com maestria sobre a
questão. O escritor, discute ideias como democracia racial” de um país que se declara
miscigenado mas apaga a negritude. Nascimento (2016 p.82 [1977]) diz: "Tudo era de
origem europeia, como agora quase tudo vem dos Estados Unidos. O país obtivera em
1822 uma independência apenas formal, permanecendo sua economia, sua
mentalidade e cultura, dependentes e colonizadas”.
No DEGASE, presenciamos meninos de pele retinta dizendo serem pardos.
Meninos e meninas negros e negras de pele clara, se autodeclarando brancos e a
maioria deles não sabendo o que dizer. O que significa 2,0% em uma pesquisa de
adolescentes que se afirmam outros” porque não sabem responder? Ou, mais de 40%
de meninos e meninas que se dizem “pardos”? A palavra “pardo”, que é ressignificada
por muitos movimentos negros como forma de aceitação da negritude, é também
extremamente discutida por esses grupos pela forma como ela foi aplicada pelo IBGE.
Por muito tempo a expressão “parda” foi adotada socialmente como forma de tentar
se distanciar do que é ser negro no Brasil. Seja na tela de Modesto Brocos (A redenção
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de Cam, 1895) às diversas formas de tentativa de embranquecimento, não debater
profunda e honestamente a questão racial no país, é não ter dados concretos de como
é a população brasileira. Isso refletirá significativamente nas pesquisas em ambientes
de privação de liberdade.
Aqui, tratamos de ambientes em privação de liberdade”, porque a realidade do
sistema prisional não difere da socioeducação. escassez de pesquisas que pensem a
raça de forma mais profunda dentro do cárcere. Não encontramos muitos trabalhos
que falem sobre atividades de letramento racial dentro desses espaços, ou que
justifiquem porque o sujeito privado de liberdade se autodeclara de determinada
forma. Não por coincidência, Segato (2021) traz uma reflexão interessante sobre a
questão racial nos presídios, pensando no contexto latinoamericano:
Além disso, tentar enunciar o que se ao entrar em uma prisão, fazer
referência à cara da população encarcerada, não é fácil, porque toca a
sensibilidade de vários atores entronizados: a da esquerda tradicional e
acadêmica, que implica dar carne e osso à matemática das classes,
introduzindo cor, cultura, etnicidade e, em suma, diferença; toca a
sensibilidade sociológica, porque os números sobre esse tema são escassos
e muito difíceis de precisar com objetividade devido às complexidades da
classificação racial; e toca ainda a sensibilidade de quem opera o Direito e
as forças da lei, porque sugere um racismo estatal. (SEGATO, 2021, p.292.)
Aqui a antropóloga suscita um ponto fundamental quando se trata de
pesquisas que envolvam a privação de liberdade: a quem interessa discutir essas
perspectivas? Quando as pessoas encarceradas, seja na socioeducação ou no sistema
prisional, são olhadas para além das reflexões sobre seus atos infracionais/crimes e
passam a ser encaradas como sujeitos que também são vítimas de um Estado
repressor e racista. Investigar dados que discorrem sobre raça, gênero e classe, de
forma profunda, é mostrar que esse mesmo Estado “falhou” com esses sujeitos muito
antes de eles cometerem atos delinquentes.
Obviamente, falhar es entre aspas, porque sabe-se de muito que essa
inatividade do Estado e da sociedade para alguns assuntos, é proposital. Com o plano
de aula trabalhado dentro da unidade GCA, será possível observar esse e outros pontos
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levantados aqui sobre a visão de raça nesses espaços e como ela é impregnada de uma
noção que antecede a trajetória desses adolescentes na internação.
DECOLONIALIZANDO AUTORES DE LIVROS: O PLANO DE AULA NO GCA
(DECOLONIALIZANDO AUTORES DE LIVROS - Terça-feira, 26 de julho de 2022,
DEGASE GCA - Ilha do Governador, RJ).
Entro na sala com meu companheiro de aula, Rick, às 14 horas. quatro meninos
entre 14 e 18 anos aparecem 15 minutos depois. Dou aula no DEGASE desde 2018, mas
atuo no GCA desde o início do ano e como é uma unidade de acautelamento, toda
semana temos alunos diferentes. Cada encontro um novo rosto naquela prisão. Nossa
aula iria até às 16h. No início é sempre aquilo: caras fechadas, silenciosas e mãos para
trás.
Boa tarde, gente! Como es a animação? Brinco com eles. Alguns abrem um
sorriso, respondem e outros permanecem sérios. Em seguida entram Carlos e Alex,
dois irmãos que estão cumprindo medida juntos. Para não perder mais tempo de aula,
começo a falar. Explico o porquê de estar ali, do que acredito como sendo educação
e falo que essa aula é um pouco diferente porque quero pensar com eles sobre
Decolonialidade.
DecolaniO que, professora? Perguntou, Messias. Uhm, Decolonialidade.
Assim, sabe quando dizem que fora tem coisa boa? Que gringo é inteligente e
sabe das coisas? Então, decolonialidade, ajuda a pensar nisso tudo! Conversamos um
pouco mais sobre o assunto.
É comum fazermos uma rodada de apresentação rápida para nos conhecermos
um pouco melhor. Em seguida eu e Rick fizemos a proposta de um jogo para quebrar o
gelo com eles. Como o plano de aula foi uma proposta minha, Rick me deixou “puxar o
bonde” e foi me dando suporte nas atividades. O jogo era simples: Eles tinham que
tirar um papel do saquinho e precisavam continuar a história da pessoa que falou
antes, incluindo a palavra que pegou. No saco coloquei as seguintes palavras:
PRETO
ÁFRICA
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FUTEBOL
LIVRO
INTELIGENTE
SUAVE5
LIBERDADE
PRISÃO
TRAJADO6
CRIANÇA
SONHOS
GRINGO
DINHEIRO
PATRICINHA
ESCOLA
FAVELA
PROFESSOR
POESIA ACÚSTICA7
Pensei em palavras que eles sempre falam em nossos encontros. Como
estávamos em oito pessoas, não usamos todas elas. Haviam dois irmãos que não
quiseram participar, estavam para baixo porque tinham acabado de falar com o pai no
telefone. Ficamos conversando sobre como criar história é difícil e falamos sobre as
mentiras que contamos para os pais, namoradas, amigos e como precisamos ser
criativos para criarmos essas ficções. Perguntamos a eles o que eles gostavam de ler na
escola. Dois dos meninos, que tinham 16 e 17 anos, não sabiam ler. Durante a
discussão, Thiago, um outro menino que estava falando com a assistente social, entrou
na sala.
Gente, vamos aproveitar que o Thiago entrou agora e vamos fazer outra
atividade que vai ajudar a gente a pensar nesse jogo que fizemos agora? Desligamos a
luz, ligamos o projetor do Rick e mostramos a primeira imagem:
7Poesia Acústica é um projeto, nascido no Rio de Janeiro, que apresenta canções de rap com diferentes
temas.
6Gíria para designar alguém que es muito bem vestido.
5Gíria usada em algumas comunidades cariocas para indicar que tudo está tranquilo.
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Figura 1 - Representação de Anne Frank
Fonte: Imagem extraída de “Porvir - Inovações em educação - O Diário de Anne
Frank como suporte para o seu projeto escolar8
Vocês conhecem essa menina? Ninguém conhecia. Ela é da época dos escravos?
Messias perguntou. Respondemos que não e eles disseram que não tinham ideia de
quem era a garota na foto. Tá bem, vocês não sabem quem ela é, mas se a gente
pedisse pra vocês dizerem o que vocês acham que ela é. Vocês chutariam? Ah, ela é
rica! Respondeu um deles e perguntamos o porquê. Tá de roupa chique, relógioAcho
que ela é estudante!
Aos poucos eles foram falando sobre a foto parecer velha por estar em preto e branco
e dela não parecer brasileira. Falaram sobre ela ser branca e parecer estar em uma boa
escola. Contamos então, quem foi Anne Frank e falamos um pouco sobre o período
que ela enfrentou enquanto escrevia seu diário.
Por que vocês acham que o diário dela fez tanto sucesso assim?
Ah é porque ela também era de fora, né? E tem esse negócio que a
senhora estava explicando do nazismo. Se fosse aqui, ninguém ligava.
Porque quem vai se importar com nossa história?
É, todo mundo conhece esse negócio aí. onde moro mesmo, tem um cara
que é esqusito e a gente chama ele de nazista por causa desse negócio
que teve. Mas, aqui não tem essas coisas. Num sei se ia fazer sucesso não.
8O Diário de Anne Frank como suporte para o seu projeto escolar Último acesso em: 26 de setembro de
2023 às 12h15min.
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