https://doi.org/10.46551/issn2179-6807v28n1p122-152
Vol. 28, n. 1, jan/jun, 2022
ISSN: 2179-6807 (online)
122
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MAPEAMENTO DO FUTEBOL DE VÁRZEA DE SÃO PAULO (SP): REFLEXÕES
PARA PROCESSOS DE PROTEÇÃO AO PATRIMÔNIO
Alberto Luiz dos Santos
1
Aira Bonfim
2
Enrico Spaggiari
3
Aprovado em: 13/08/2022
Resumo: Este artigo busca reconstituir as atividades e etapas do processo de elaboração do
projeto de mapeamento do futebol várzea na cidade de São Paulo, encomendado pelo Núcleo
de Identificação e Tombamento do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) a fim de reunir
subsídios para a identificação de práticas culturais relacionadas ao universo popular varzeano e
para a análise de processos administrativos de proteção do patrimônio cultural. Após uma breve
contextualização sobre a prática do futebol de várzea e do circuito varzeano de São Paulo, serão
apresentados os procedimentos, protocolos e técnicas adotados; os contextos selecionados
como “pontos nodais” da pesquisa; os três principais eixos temáticos de análise campos,
acervos/coleções e eventos/projetos/práticas culturais ; alguns relatos e insights da pesquisa
etnográfica em um clube específico; por fim, destaca, ainda que de forma incipiente, algumas
reflexões, indicadores e possíveis encaminhamentos para subsidiar os processos patrimoniais
de proteção ao futebol de várzea. Dentro de um quadro de reconhecimento e valorização do
patrimônio do território da cidade de São Paulo, o futebol varzeano identifica-se com processos
culturais presentes no cotidiano das camadas populares e periféricas inerentes à construção das
identidades sociais e ao direito à cidade.
Palavras-chave: Mapeamento. Futebol de Várzea. Patrimônio. Metrópole. Cultura Popular.
MAPPING OF AMATEUR FOOTBALL IN SÃO PAULO (SP): REFLECTIONS ON HERITAGE
PROTECTION PROCESSES
Abstract: The article aims to reconstitute the activities and stages of the process of elaboration
of the project of mapping the amateur football in the city of São Paulo, commissioned by the
1
Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Rede Paulista de Educação
Patrimonial (REPEP) e do Grupo de Pesquisa Patrimônio, Espaço e Memória, vinculado ao
Labur/FFLCH/USP (CNPq). E-mail: albertosantos@alumni.usp.br ORCID:0000-0001-6657-4806.
2
Mestra em História Social pela FGV. Fez parte da equipe de implantação do Centro de Referência do
Futebol Brasileiro (CRFB), em 2011, no Museu do Futebol, onde atuou até 2018 como pesquisadora e,
depois, curadora. Trabalha como consultora para entidades culturais e de preservação do patrimônio,
bem como no diálogo entre a universidade e as redes populares de articulação e protagonismo no futebol.
E-mail: airafbonfim@gmail.com. ORCID: 0000-0002-3192-9168
3
Mestre e Doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Membro do Grupo de
Estudos em Antropologia da Cidade (GEAC-USP), LabNAU (Laboratório do Núcleo de Antropologia
Urbana-USP) e do LUDENS - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas
(USP). Fundador e editor do Site Ludopédio. E-mail: enricospaggiari@gmail.com. ORCID: 0000-0002-7078-
3827
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Nucleus of Identification and Tombamento of the Department of Historical Heritage (DPH) in
order to gather subsidies for the identification of practices related to the football popular
universe and for the analysis of administrative processes for the protection of cultural heritage.
After a brief contextualization of the São Paulo amateur football circuit, the following will be
presented: the procedures, protocols and techniques adopted; the contexts selected as “nodal
points” of the research; the three main thematic axes of analysis fields, collections/collections
and events/projects/cultural practices ; some reports and insights from ethnographic research
in a specific club. Finally, it highlights, albeit in an incipient way, some reflections, indicators and
possible referrals to subsidize the heritage processes for the protection of amateur football.
Within a framework of recognition and appreciation of the heritage of the territory of the city
of São Paulo, amateur football is identified with cultural processes present in the daily life of
popular and peripheral layers inherent to the construction of social identities and the right to
the city.
Keywords: Mapping. Amateur Football. Heritage. Metropolis. Popular Culture.
MAPEO DEL FÚTBOL AMATEUR EN SÃO PAULO (SP): REFLEXIONES SOBRE LOS PROCESOS DE
PROTECCIÓN DEL PATRIMONIO
Resumen: El artículo busca reconstituir las actividades y etapas del proceso de elaboración del
proyecto de cartografía del fútbol amateur en la ciudad de São Paulo, encargado por el Centro
de Identificación y Tombamento del Departamento del Patrimonio Histórico (DPH) con el fin de
recaudar subsidios para la identificación de prácticas relacionadas con el universo popular del
fútbol y para el análisis de procesos administrativos para la protección del patrimonio cultural.
Después de una breve contextualización sobre el circuito de fútbol amateur en São Paulo, se
presentarán los procedimientos, protocolos y técnicas adoptadas; los contextos seleccionados
como “puntos nodales” de la investigación; los tres grandes ejes temáticos de análisis campos,
colecciones/colecciones y eventos/proyectos/prácticas culturales; algunos informes y puntos
de vista de la investigación etnográfica en un club específico. Finalmente, destaca, aunque de
forma incipiente, algunas reflexiones, indicadores y posibles referencias para subvencionar los
procesos patrimoniales de protección del fútbol amateur. En un marco de reconocimiento y
valorización del patrimonio del territorio de la ciudad de São Paulo, el fútbol amateur se
identifica con procesos culturales presentes en el cotidiano de capas populares y periféricas
inherentes a la construcción de identidades sociales y del derecho a la ciudad.
Palabras-clave: Mapeo. Fútbol Amateur. Patrimonio. Metrópoli. Cultura Popular.
INTRODUÇÃO
Fundado pelos operários da antiga Companhia Vidraria, o Santa Marina Atlético
Clube completou recentemente 108 anos de existência - um dos mais antigos clubes
amadores da cidade. Localizado no bairro da Água Branca, zona Oeste de São Paulo, é
um dos espaços que resiste às transformações de uma região que perde sua paisagem
industrial e passa a ser alvo do processo crescente de especulação imobiliária.
Ao seu lado fica a antiga fábrica, hoje pertencente à multinacional Saint-Gobain,
que teve parte de sua estrutura tombada enquanto patrimônio histórico, em 2009, pela
Prefeitura de São Paulo. A relação entre a multinacional e o SMAC é marcada por
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tensões e disputas, que resultaram na perda de quase metade da área do clube.
Apesar das perdas e reformulações, o espaço segue sendo referência para prática do
futebol de várzea e também para a sociabilidade e memória da cidade. Atualmente, o
Santa Marina está sob ameaça de despejo, após o pedido de reintegração de posse feito
pela Saint-Gobain.
Em 2021, diante do caso do Santa Marina e de um contexto marcado por
reiteradas ameaças aos espaços urbanos associados à prática do futebol popular, o
Núcleo de Identificação e Tombamento do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH)
encomendou a realização de um mapeamento do futebol de várzea na cidade de São
Paulo a fim de reunir subsídios para a identificação de práticas culturais na cidade de
São Paulo relacionadas ao futebol de várzea e para a análise de processos
administrativos de proteção do patrimônio cultural. Com este objetivo, foi formada uma
equipe de pesquisadoras e pesquisadores de três áreas Antropologia, Geografia e
História responsável pela elaboração dos procedimentos metodológicos, coleta de
dados e produção do relatório analítico.
Os eixos previstos e delineados pelo Departamento de Patrimônio Histórico
(DPH) colocavam o desafio de fazer o levantamento, categorização e mapeamento
georreferenciado de agentes e locais que permeiam as dinâmicas históricas e
contemporâneas do circuito varzeano em São Paulo,
4
bem como de outros aspectos
relevantes relacionados ao campo do patrimônio cultural. Este primeiro esforço de
seleção de casos o que chamamos de pontos nodais - e de interpretação, ainda que
esteja aberto às inúmeras controvérsias desse campo, apresenta escolhas
representativas do fenômeno pesquisado, contemplando suas permanências e
efemeridades.
5
4
Aqui entendido a partir da ideia de um circuito proposta por Magnani (2005), pois reúne um conjunto
práticas, serviços, espaços e equipamentos por onde circulam pessoas e grupos que, a despeito suas
experiências singulares, produzem pertencimentos e identidades, mesmo não se conhecendo e
frequentando lugares dispersos pela cidade.
5
Além disso, cabe ressaltar que, frente às alterações na organização das atividades dos clubes sociais e
agremiações varzeanas ao longo do contexto pandêmico que se estendeu de março de 2020 até o
momento de realização da pesquisa, optou-se por trabalhar, principalmente para os mapeamentos
georreferenciados, com dados relativos ao ano de 2019, período anterior à interrupção das práticas
cotidianas observada durante o período mais rígido da quarentena. Contudo, algumas situações e
dinâmicas puderam ser atualizadas com dados coletados a partir dos contatos travados com
interlocutores ao longo de novembro e dezembro de 2021.
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Este artigo busca reconstituir as atividades e etapas do processo de elaboração
do mapeamento do futebol varzeano de São Paulo. Após uma breve contextualização
sobre a prática do futebol de várzea e do circuito varzeano de São Paulo, serão
apresentados os procedimentos, protocolos e técnicas adotados; os contextos
varzeanos selecionados como “pontos nodais” da pesquisa; os três principais eixos
temáticos de análise campos, acervos/coleções e eventos/projetos/práticas culturais
–; e alguns insights e resultados da pesquisa etnográfica realizada no clube Santa
Marina. Por fim, o artigo reúne, ainda que de forma incipiente, algumas reflexões,
indicadores e possíveis encaminhamentos para subsidiar os processos patrimoniais de
proteção ao "futebol de várzea".
FUTEBOL DE VÁRZEA
Os caminhos para elucidar a grande inserção do futebol no cotidiano da
população brasileira são desafiadores. Quando o assunto é esporte, no Brasil, narrativas
hierárquicas seguem sendo reproduzidas como modo de legitimar a noção consagrada
do “país do futebol”: o esporte mais praticado, o mais popularizado, o mais aclamado,
aquele que mobiliza o maior número de torcedores/as e entusiastas.
Não dúvidas de que tal posição possa ser legitimada, sobretudo quando se
aportam metodologias quantitativas. Também nos parece legítimo afirmar que essa
condição seja fruto do avanço da indústria do futebol no século XX, articulada às
entidades nacionais e internacionais (confederações, federações, ligas, ), projetando sua
representação enquanto mercadoria a ser consumida: o futebol espetáculo
6
.
Mas, quais elementos nos permitem afirmar essa predominância enquanto
prática, no território brasileiro? A adoção do termo no plural - os futebóis -, que tem
sido trabalhada nesta seara, é frutífera para responder à questão
7
. Assumir os futebóis,
6
Segundo Debord (1997), o espetáculo é uma alienação fabricada. Reproduz-se no contexto do
capitalismo do século XX em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social, instaurando o vivido como
representação. A indústria e o consumo do futebol podem ser, nessa chave, relacionados às
pseudonecessidades de que trata o autor, que fazem o tempo das coisas se impor como nova face do
tempo e o espaço ser refeito como cenário. Para além dos diálogos possíveis com o autor e uma discussão
mais aprofundada sobre o futebol espetáculo, ver Damo (2005) e Ribeiro (2021).
7
O debate sobre os futebóis, na seara de estudos do futebol brasileiro parte da referência de Damo
(2005).
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oriundos de diferentes matrizes e conformando diferentes circuitos
8
, assenta sua
diversidade no que concerne aos modos de jogar, lugares e lógicas de organização.
Ademais, permite superar o entendimento do futebol enquanto esporte, avançando ao
reconhecimento das múltiplas referências culturais que têm o futebol como mote
9
.
Nessa chave, situar o futebol de várzea como uma dentre as diversas expressões
dos futebóis no território brasileiro é um primeiro passo para elucidar essa vertente a
quem não tenha vivência e familiaridade
10
. O segundo é posicionar o futebol de várzea
no conjunto dos futebóis que se consolidaram, historicamente, de modo contra -
hegemônico frente ao futebol espetáculo. (RIBEIRO e SPAGGIARI, 2022)
11
Contextualizar a consolidação desta hegemonia no Brasil é uma tarefa de difícil
precisão, sendo uma possibilidade potente partir de contingências espaço-temporais.
Grosso modo, trata-se de identificar, em diferentes cidades e regiões, o advento da
prática futebolística, a fundação de clubes e entidades, a oficialização de regulamentos,
a profissionalização dos atletas e a capitalização do esporte. Considerando esse
conjunto é possível apreender, como faz Ribeiro (2021), as balizas temporais que
fundamentaram um circuito de futebol dominante, formado por uma elite de clubes
controladores das entidades diretivas.
12
Circuito que passou a projetar seus interesses,
além de instaurar limites à participação de times e clubes em suas competições,
assumindo uma posição de superioridade a partir de premissas socioeconômicas, raciais
e de gênero.
Em síntese, essa cisão excludente se desdobrou no contexto seminal do futebol
em diversas cidades brasileiras, sendo fundante para compreender o advento do futebol
amador, enquanto prática contra - hegemônica (RIBEIRO, 2021). A expansão do futebol
8
A partir da noção de circuito proposta por Magnani (2005), apresentada na nota 4, as matrizes dos
futebóis (espetacularizada, comunitária, bricolada e escolar), propostas por Damo (2005), passaram a ser
mobilizadas enquanto circuitos, como mostram os trabalhos de Myskiw (2012) e Damo (2018). Para
aprofundamento da questão, ver Ribeiro (2021).
9
O conceito de referências culturais nessa discussão toma como referência o sistema normativo de
proteção ao patrimônio (IPHAN 2000 e 2016). A partir das categorias de referências (lugares, saberes,
objetos, celebrações e formas de expressão) é possível vincular múltiplas práticas e significados que
envolvem os futebóis. Sobre o tema ver Santos (2021).
10
Sobre tais vertentes e outras modalidades esportivas a partir do futebol ver Ribeiro e Spaggiari (2022).
11
Tais autores enfatizam uma naturalização, na sociedade, que vincula o termo futebol prioritariamente
ao esporte profissional masculino e adulto, aquele organizado por regulamentos pré-definidos
institucionalmente, aparatado por estruturas clubísticas dominantes e elevados investimentos
econômicos.
12
Na discussão, o autor enfoca a cidade de Belo Horizonte (MG).
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amador se deu por percursos também variados: o futebol gestado em clubes (sejam os
populares ou os mais elitizados), o futebol de fábrica (associado às estruturas industriais
e aos ciclos de trabalho) e o futebol em campos auto - organizados (espraiados pelos
bairros urbanos e rurais, populares em sua maioria), permitem dimensionar sua
ascensão e consolidação, sendo premente destacar que o futebol amador sempre
projetou um sistema organizativo e de regulamentos cuja referência foi o circuito
dominante, contando com inúmeras entidades diretivas de variados portes.
Para além dos lugares e formas de organização, este amadorismo foi pautado
pela não profissionalização, ainda que a possibilidade de ascensão pelas experiências
formativas amadoras esteja imbricada à história da vertente. Destacam-se, ainda, os
fluxos econômicos do futebol amador, que mesmo incipientes envolvem patrocínios,
eventos, materiais e, em muitos casos, a remuneração de jogadores.
A depender de significados locais e regionais, a denominação deste futebol
amador se confunde com o futebol de várzea. São encontros e desencontros: ora
entendidos como sinônimos, ora diferenciados pelo entendimento de haverem, num ou
noutro, um conjunto de singularidades.
Para além de remeter à noção geográfica de localização, ou seja, de ter sido
gestado nos campos auto-construídos nos meandros dos rios e suas adjacências, o
termo futebol de várzea remete a um circuito de reconhecimento mútuo entre sujeitos,
grupos, times, clubes populares, torcedores e entusiastas. Trata-se de uma demarcação
social e espacial: popular e majoritariamente periférica, realizada por pessoas alijadas
de seus direitos, desde o lazer e à prática esportiva, ao direito à cidade em sentido
amplo
13
. O que não eximiu a histórica pujança da festa, da música, dos acervos de
memória, dos modos de torcer, dentre tantas referências culturais articuladas aos
campos de várzea, que conferem aos grupos de varzeanos/as um denso sentido afetivo
de pertencimento.
Em muitas cidades brasileiras, essa breve descrição do futebol de várzea poderia
ser simplesmente projetada como sinônimo de futebol amador. Noutras, o termo
“várzea” - que surgiu dos primórdios da prática em cidades como São Paulo, Porto
Alegre e Belo Horizonte -, é pouco corrente ou nem mesmo reconhecido. Há, ainda,
13
Sobre o tema ver Lefebvre (1991).
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outras denominações, como o peladão, de Manaus e Cuiabá, que expressam os arranjos
de futebol contra - hegemônico e representativo das culturas populares
14
.
Cumpre destacar que nos (des) encontros entre o uso dos termos, ocorrem
situações em que o futebol amador é associado a uma dimensão mais bem estruturada,
disciplina e aparatada economicamente em relação ao futebol varzeano. Nesses casos,
não raro, a ideia de várzea passa a ter conotação pejorativa e a de futebol amador se
descola de suas bases populares. Reconhecendo ser uma questão semântica e que,
portanto, envolve um sem número de subjetividades locais e regionais, cumpre enfocar
no futebol de várzea paulistano, motivador da pesquisa que é o enfoque deste artigo.
FUTEBOL DE VÁRZEA EM SÃO PAULO (SP)
Entre as nascentes de Paranapiacaba, o campo do Lira Serrano Athletic Club
(atualmente inativo), situado na vila de mesmo nome, em Santo André (SP), é expressivo
da história do futebol em São Paulo e, articuladamente, na Região Metropolitana,
demarcando contradições e enfatizando narrativas. Um conjunto de estudos o situa,
inclusive, como primeiro estádio de futebol do Brasil
15
. Mais um dentre os esboços,
sempre inconclusos, de delimitação espaço-temporais do jogo que viria a se tornar
febre, viria a se tornar esporte.
16
Inaugurado em 1894, seu “auge” envolveu
competições regionais no ABC, principalmente a Vila de Campo Grande e Rio Grande da
Serra, além de outros povoados-estações
17
da região, bem como da capital paulista.
A despeito da atribuição do título de pioneiro, sua materialidade
18
persistente -
ainda que estágio de deterioração -, é reveladora da sociabilidade de vilas operárias,
uma prática que seria recorrente em todas as regiões de São Paulo, nas décadas
posteriores: o jogo de futebol atrelado ao cotidiano de trabalho industrial e ferroviário.
14
Segundo Ribeiro e Spaggiari (2022): “É por identificar uma similaridade entre os perfis socioeconômicos
dos envolvidos com a prática, entre a localização geográfica de seus campos de jogo e entre seus valores
e modos de fazer, que se aproximam de uma variedade de outras expressões culturais, que propomos a
categoria “popular” para unificar essa diversidade de vivências futebolísticas que ganham as mais variadas
nomenclaturas pelo país”.
15
Sobre o tema ver Inventário de Referências Culturais da Região em Brasil Restauro (2020).
16
Sobre a “febre do futebol” e sua reverberação em São Paulo (SP) ver Seabra (2003). Sobre a
transformação do jogo em esporte, a partir de processos em São Paulo (SP) ver Gonçalves (2011).
17
Sobre os povoados-estações nas ferrovias de São Paulo e Região Metropolitana ver Pereira (2005).
18
O campo está inserido no perímetro de tombamento da Vila de Paranapiacaba pelo IPHAN (2008).
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Se os eixos ferroviários-industriais, os fluxos imigratórios e a formação de bairros
operários são bases para demarcar o advento do futebol em São Paulo (SP) e cidades
vizinhas
19
, é premente pontuar que a pujança jogo e as sociabilidades atreladas
ganhariam ainda mais potência em outro circuito impulsionado pela urbanização, ora
apartado, ora simultâneo ao circuito das fábricas e associativismo imigrante.
Como dito, o exemplo do Lira Serrano, time desdobrado do Clube União Lira
Serrano, na “vila inglesa” de Paranapiacaba, próximo à Estação, exemplifica um dentre
muitos casos do futebol ascendente pelas levas de imigrantes trabalhadores. Destaque
que tais práticas se entremearam também, em clubes elitizados existentes (não
situados em vilas operárias e onde não havia, até então, a prática do futebol). Nesses
arranjos, as continuidades e rupturas entre o amadorismo e o circuito dominante,
conforme supracitado, foi se revelando em São Paulo (SP) e região.
Mas para compreender a multiplicação do jogo em São Paulo (SP) é preciso
demarcar as várzeas. Como as dos rios Tamanduateí e Tietê, para onde afluem as águas
das nascentes citadas e de tantas outras da bacia. Nos meandros desta rede
hidrográfica, se adensavam as águas, os sedimentos e os atoleiros. Também surgiam as
marcas à cal e as balizas. Gols improvisados, onze contra onze se multiplicando no
percurso. Isso por que, nos rumos dessas águas se conformavam os adensamentos
populacionais populares: o morar das pessoas mais pobres, em grande parte excluída
das oportunidades aventadas pelo trabalho na indústria, principalmente negros e
negras.
Trata-se dos vazios urbanos ainda não loteados ou em curso, abarcados pela
força auto-construtiva das famílias, garantidoras da moradia, ainda que em muito
precárias e espoliadas
20
. Vazios urbanos em grande parte situados, justamente, nos
meandros, com os terrenos mais baratos ou nem mesmo incorporados à área
urbanizada.
A cidade de São Paulo (SP) explodia
21
, tornando-se contígua aos aglomerados
urbanos vizinhos, alcançando as margens destes rios, por vezes os canalizando. Uma
explosão articuladora de histórias de vida e referências culturais múltiplas: pessoas
19
Sobre o tema ver Mascarenhas de Jesus (2002), Antunes (1994), Seabra (2003).
20
Sobre o tema ver Kowarick (1979).
21
Sobre o processo de implosão-explosão da cidade, a partir da industrialização ver Lefebvre (2001).
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advindas de cidades do interior, de outros Estados e também estrangeiras. A força deste
encruzamento explodiu a várzea enquanto identidade, associativismo e fazer coletivo.
Tem um proceder que se formou nessa dinâmica: identidades, afetos e memórias. Um
ensejo significativo da festa futebolística
22
a cidade que se tornava metrópole.
As várzeas dos rios foram os principais eixos da São Paulo voltada ao automóvel.
No bojo equívoco rodoviarista, um dos indutores de uma expansão violenta, demarcada
social e racialmente: o padrão periférico de crescimento em seus momentos iniciais
23
.
Em todas as direções onde essa autoconstrução do morar se expandiu, o futebol como
obra coletiva foi potente e se multiplicou
24
.
Por autoconstrução do morar, entendemos, os movimentos e assentamentos de
famílias segregadas da cidade que se queria moderna. Famílias alijadas do então centro,
expulsas pelo pacto capital-Estado: leis urbanísticas de cunho sanitarista e racista
aliadas e uma provisão privada do morar que não abarcava a demanda por moradia.
Uma conivência estratégica, de pactuar com o crescimento da cidade “ilegal” para,
posteriormente, incorporá-la com políticas públicas mínimas e insuficientes
25
.
Assim, o futebol de várzea de São Paulo deve ser entendido, também, como
futebol de vertente, morro, alagado, quebrada, favela, beco, vila... Sempre foi,
sobretudo, popular e atrelado à vida de bairro. Destes arranjos comunitários floresceu
e segue florescendo o fazer coletivo realizador da festa varzeana: apropriação do
espaço, autoconstrução de campos e diversas ordens de agenciamentos organizativos
para eventos e competições, envolvendo negociações políticas com entes privados e
públicos. Um futebol de várzea sempre vinculado à abnegação
26
de varzeanos e
varzeanas, entregues à viabilização de todo um circuito, até hoje pulsante.
É premente pontuar a fragmentação da vida de bairro, no contexto da
estruturação de São Paulo como metrópole, marcado pela reprodução do espaço e pela
raridade espacial, deflagrada pelas estratégias de valorização, especulação e
incorporação imobiliária pós década de 1970
27
. Contexto de intensificação das grandes
22
Sobre o tema ver Seabra (2003).
23
Sobre o tema ver Raimundo (2017).
24
Sobre o tema ver Santos (2021).
25
Sobre o tema ver Manente (2001)
26
Sobre o tema ver Favero (2019).
27
Sobre o tema ver Carlos (2001)
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obras infra-estruturais e demandas por serviços públicos que, junto ao retalhamento do
espaço como mercadoria, levou ao desaparecimento de inúmeros campos varzeanos
28
.
Para além da materialidade dos campos, o contexto foi também tolhedor de
múltiplas formas de sociabilidade e associativismo, como o caso dos clubes populares e
times varzeanos, diante do avanço do cotidiano programado para o consumo, do lazer
transformado em entretenimento e espetáculo. Contudo, um olhar dialético é
imprescindível para compreender as contrapartidas deste processo, aquilo que as
culturas populares realizaram à revelia dos determinantes da metrópole capitalista.
A manutenção da efervescência varzeana é um processo emblemático e
significativo. Se as relações de vizinhança, sociabilidade e associativismo se tornaram
rarefeitas nos antigos bairros populares, o que poderíamos chamar de “várzeas iniciais”,
pensando no circuito desta vertente futebolística, elas foram recriadas, continuamente,
no território periférico em expansão, em novos encruzamentos de pessoas, famílias e
comunidades.
29
Os campos de futebol de várzea são referências culturais para as pessoas neste
movimento do morar nem sempre intencional e não menos violento e segregador.
Campos que são o suporte material e simbólico do encontro semanal, do fortalecimento
de laços comunitários e dos fazeres coletivos. Sejam aqueles que “resistiram”, a partir
de cultura política organizativa e das variadas formas de negociações, onde o calendário
de usos, jogos, eventos e competições se intensificou profundamente. Sejam aqueles
que, enquanto obra coletiva, foram e seguem sendo - autoconstruídos em contextos
mais recentes. Uma permanência que, sem dúvida, teve na instauração de formas de
administração pública de campos e clubes municipais
30
um trunfo.
Assim, segue a várzea de São Paulo (SP): milhares de boleiros/as na prática do
jogo, milhares de torcedores/as em seus diferentes modos de proporcionar e vivenciar
a festa, centenas (e quiçá milhares também) de pessoas diretamente envolvidas nas
atribuições dos numerosos jogos (amistosos, festivais e copas, em diferentes
28
Para estimativas quantitativas sobre os campos varzeanos no contexto de tais mudanças ver
CONDEPHAAT (1994) e Santos (2021).
29
Sobre o tema ver Spaggiari (2016).
30
Trata-se dos antigos Clubes Desportivos Municipais (CDMs), atuais Clubes da Comunidade (CDCs),
Centros Esportivos ( denominados “Clubes Escola”, em determinado período) e dos Centros
Educacionais Unificados (CEUs), que possuem campos inseridos no calendário varzeano.
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categorias), espraiados pela metrópole a cada semana, principalmente nas periferias.
Pessoas que organizam a agenda, a equipe, os deslocamentos, as estruturas, os
fardamentos e tudo o mais que viabiliza o jogo varzeano, mesmo que tal arranjo se
no limite do possível, em termos de investidas econômicas. Que organizam, também, a
festa e o encontro, pois para além do jogo e torcida, a comida de bar e de
churrasqueira, a resenha de antigas e renovadas amizades, os grupos em comunhão
descontraída e, também, em rivalidade. a música, ritmando o ambiente futebolístico,
entre discotecagens e fazeres musicais, principalmente as rodas de samba e batucadas.
Entre arquibancadas, alambrados e terra batida, a brincadeira das crianças se atrela à
sua formação no futebol. E para o assentamento e renovação desses arranjos, os
acervos nos campos (materiais impressos, registros fotográficos e audiovisuais, troféus,
uniformes) como expressão de memórias em constante diálogo e compartilhamento.
Apresentamos, na seção a seguir, o percurso metodológico do estudo e os eixos
temáticos elaborados para apreender esse circuito e tecer interpretações sobre a várzea
paulistana a partir de um conjunto de pontos nodais representativos.
PERCURSO METODOLÓGICO
Um dos desafios da pesquisa foi olhar para o futebol de várzea paulistano em
uma dupla perspectiva, sincrônica e diacrônica, articulando diferentes metodologias
(procedimentos, protocolos e técnicas), como levantamento de dados, mapeamento
georreferenciado, pesquisa etnográfica e compilação das referências bibliográficas.
O levantamento de dados buscou, como ponto de partida, dialogar com uma
vasta bibliografia acadêmica (livros, teses, dissertações, artigos) de diferentes áreas das
Ciências Humanas (História, Geografia, Sociologia e Antropologia), bem como com a
produção de registros históricos e etnográficos do Centro de Referência do Museu do
Futebol (CRFB), setor responsável por pesquisar e documentar diferentes expressões do
futebol no Brasil, por meio de projetos próprios ou em parceria com universidades,
centros de pesquisa ou pesquisadores individuais, com vistas à constituição do acervo
do Museu do Futebol.
Com base neste conjunto de produções bibliográficas acadêmicas e não
acadêmicas -, bem como na atuação dos/as autores/as deste artigo, que vêm se
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dedicando aos estudos sobre outras expressões futebolísticas não espetacularizadas em
suas pesquisas e trabalhos individuais em diferentes áreas (Antropologia, Geografia e
História), sete contextos varzeanos paulistanos foram selecionados como “pontos
nodais”, ou seja, referências iniciais do processo de levantamento de dados, trabalho de
campo e mapeamento georreferenciado: Santa Marina Atlético Clube, Pioneer Football
Club, Negritude Futebol Clube, Grêmio Botafogo de Guaianases, Centro Esportivo
Oswaldo Brandão, Campo da Xurupita e CDC Parque Taipas, Complexo de Campos de
Futebol do Campo de Marte.
Não cabe aqui fazer uma descrição, mesmo que breve, destes clubes,
associações e espaços varzeanos, mas sim destacar que os exemplos escolhidos
apresentam em comum o amplo reconhecimento do público varzeano e ressonância das
pessoas que fazem parte desse circuito. Esta pequena amostra representativa, que não
busca reconstituir a totalidade do circuito varzeano de São Paulo (SP), é capaz de gerar
reflexões sobre o espaço público, suscitando reivindicações pela formulação de políticas
mais inclusivas e abrangentes no âmbito do patrimônio, do lazer e da cultura.
De maneira mais crítica, os futebóis representados pelos pontos nodais
escolhidos são importantes na demonstração da ação de destruição e reconstrução das
cidades contemporâneas, como bem problematizado pelo geógrafo Gilmar
Mascarenhas (2019). O pesquisador demonstra que os estádios e campos (suportes
materiais dessa prática esportiva) passam por transformações consecutivas, tendo em
vista demandas e possibilidades direcionadas para o mercado imobiliário e especulativo.
Nesse sentido, os endereços físicos contemplados nessa pesquisa são
exemplificações de "um espaço residual para o futebol de várzea" como bem definido
por Scifoni (2013), resultantes da urbanização nas últimas décadas. A autora, membra
da equipe do estudo de tombamento do Parque do Povo (SÃO PAULO, 1994), afirma
que tal normativa acarretou no reconhecimento do futebol de várzea como uma prática
social, ligada à dimensão do lazer e da sociabilidade, assim como, do lugar que serviu
historicamente de suporte material para o desenvolvimento dessa atividade cultural.
Essa definição de Scifoni corrobora com uma proposta, ainda incipiente no Brasil, de um
desenho híbrido de preservação - material e imaterial - que pode ser elucidada a partir
dos lugares de atividades dos clubes de futebol varzeanos, conforme será aprofundado
na próxima seção deste artigo.
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A justificativa que evoca essa materialidade é também elaborada por Magnani e
Morgado (1996) ao acrescentar que um dos principais argumentos para a
patrimonialização do futebol de várzea relaciona-se com a manutenção de uma área
verde e da qualidade ambiental de um bairro, atrelada ao entendimento da concepção
do lazer como um direito social, sendo considerado importante preservar os espaços
nos quais ocorriam (e ocorrem) práticas esportivas e recreativas. Soma-se a esse
argumento uma distensão relativamente recente - pós-colonial - da atuação do Estado
sobre o patrimônio não-consagrado, intrínseco às culturas populares, indígenas e afro-
brasileiras. Nesse aspecto, esse "patrimônio varzeano" articula-se com representações
periféricas, populares e com identificações entre minorias, identidades sociais que
notadamente buscam maiores equiparidades entre os objetos, lugares, práticas e
demais processos passíveis de proteção.
No que concerne ao futebol de várzea, a imaterialidade dessa prática, para além
das suas "formas de jogar", traduzem o que Ribeiro (2017, 2018) defende para o futebol
varzeano como uma atividade esportiva e de lazer que produz laços sociais, cria vínculos
de pertencimento e fortalece a valorização do território. Nesse sentido, o conjunto de
características que envolvem essa prática de futebol nos provocam a compreendê-lo
como um patrimônio dinâmico, afetivo, comunitário e um enorme potencial para
produzir efeitos nos sujeitos envolvidos nessa interação, como sugerido por Teixeira da
Silva e Silva (2020). Assim, tais imaterialidades, entrecruzadas, advém do jogo, assim
como das práticas e significados relacionados ao torcer, aos fazeres musicais, ao
deslocar pela metrópole, ao encontrar semanalmente (comer, beber, confraternizar,
“resenhar”), entre outros arranjos abordados ao longo do estudo.
Portanto, os pontos nodais escolhidos (Mapa 1), atendem a critérios que
privilegiam exemplos de atividades do futebol varzeano em todas as regiões da
metrópole, com diferenças e similaridades, representantes de épocas distintas, além de
existentes (e resistentes) na cena contemporânea ocupada por esse esporte. Sabemos,
contudo, que o desdobramento para uma possível patrimonialização demanda a
viabilização de processos participativos junto aos grupos envolvidos e frequentadores
destes pontos nodais no cotidiano. Tais possibilidades são aprofundadas na próxima
seção.
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De forma paralela aos levantamento envolvendo os pontos nodais, foi realizada
uma pesquisa etnográfica
31
em um destes pontos, o Santa Marina Atlético Clube, que
revelou a multiplicidade de narrativas, memórias e controvérsias que conferem sentido
à existência e às transformações de um clube com 108 anos de história - o mais antigo
em atividade na cidade e que apresenta uma notável centralidade na região em que
está inserido, tanto no que se refere ao entorno quanto na relação com outros
equipamentos da metrópole.
31
Metodologia que, por excelência, ampara a produção de conhecimento da Antropologia, ciência que
procura compreender as diferentes formas de dar sentido e viver o mundo, expressas a partir das relações
de alteridade e dinâmicas de estranhamento e familiaridade vivenciadas por pesquisadores e
interlocutores no momento da pesquisa. Como aponta José Guilherme Magnani, “(...) a etnografia é uma
forma especial de operar em que o pesquisador entra em contato com o universo dos pesquisados e
compartilha seu horizonte, não para permanecer ou mesmo para atestar a lógica de sua visão de
mundo, mas para, seguindo-os até onde seja possível, numa verdadeira relação de troca, comparar suas
próprias teorias com as deles e assim tentar sair com um modelo novo de entendimento ou, ao menos,
com uma pista nova, não prevista anteriormente” (Magnani, 2009, p.135).
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Mapa 1: Futebol de várzea de São Paulo (SP) - Pontos nodais da pesquisa
Fontes: Base de dados Portal Geosampa (2021), Google Maps e Informações cedidas pelos clubes.
Elaboração: Alberto Luiz dos Santos (2021)
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A partir de uma abordagem de perto e de dentro (MAGNANI, 2002),
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buscou-se
compreender não as características e dinâmicas mais gerais do Santa Marina, como
o uso das instalações para práticas esportivas e culturais, mas também as percepções,
motivações e afetividades dos frequentadores em relação ao clube. Entretanto, ao
contrário de uma etnografia clássica, em que um pesquisador tradicionalmente passava
longos períodos de tempo dentro de determinado contexto cultural, neste caso, o curto
período de duração do trabalho de campo, tornaram necessária a adaptação do método
etnográfico para o desenho desta pesquisa. Durante 10 dias, entre os meses de
novembro e dezembro de 2021, quatro etnógrafos/as,
33
de forma coletiva e
compartilhada, realizaram uma pesquisa de campo que tinha como objetivo explorar as
práticas e dinâmicas constitutivas do Santa Marina para compreender as relações
estabelecidas entre os diversos atores sociais, e também ao conjunto de categorizações
locais, acionadas cotidianamente para fazer referência ao que é vivenciado e praticado
no clube, produzindo, assim, sentidos sobre o Santa Marina.
Assim, por meio da etnografia, foi possível acessar, de forma muito direta, suas
escolhas e engajamentos nas atividades, suas trajetórias e rotinas, como interagem uns
com os outros e como avaliam a importância e significados do Santa Marina em suas
vidas, configurando formas específicas de construção identitária e de pertencimento ao
clube. Portanto, trata-se de um contexto esportivo, cultural e de lazer que apresenta
questões essenciais para pensar os modos de viver a cidade. Por isso, a partir do Santa
Marina é possível problematizar a heterogeneidade do próprio contexto urbano em
dinâmicas mais ampliadas de construção de vínculos citadinos.
Por fim, os mapas georreferenciados foram elaborados com bases de dados
disponibilizadas pelo Portal GeoSampa (Prefeitura Municipal de SP), informações
disponibilizadas pelos/as varzeanos/as que contribuíram com a pesquisa e informativos
32
Na abordagem de perto e de dentro reproduz-se um dos preceitos clássicos da prática etnográfica, a
observação participante, por meio da qual o pesquisador não somente conversa com os diferentes atores
sociais, como também observa e participa das atividades realizadas nos períodos de pesquisa. Essa
dimensão fina do campo, uma observação distanciada, “de longe e de fora”, não conseguiria apreender.
Somente a partir da observação sistemática e da permanência intensiva em campo se desenvolve uma
perspectiva de perto e de dentro, “(...) a partir dos arranjos dos próprios atores sociais, ou seja, das formas
por meio das quais eles se vêm para transitar pela cidade, usufruir seus serviços, utilizar seus
equipamentos, estabelecer encontros e trocas nas mais diferentes esferas religiosidade, trabalho, lazer,
cultura, participação política ou associativa etc.” (MAGNANI, 2002, p. 132).
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Enrico Spaggiari, Mariana Hangai, Rodrigo Valentim Chiquetto e Yuri Bassichetto Tambucci.
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das páginas dos times e clubes nas redes sociais.
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Adotou-se, com recorrência, o critério
de localização do bairro de origem dos times e clubes, ou seja, a "quebrada" da
metrópole onde se localizam. As quebradas, nesse entendimento, concernem às
subdivisões dos Distritos Municipais, mormente denominadas como Vilas e Jardins.
35
Para proceder ao georreferenciamento de tais quebradas, como, por exemplo,
no Mapa 2, a pesquisa tomou como referência o endereço e/ou nomenclatura cedida
pelos/as varzeanos, ou seja, um critério de auto-identificação. Por exemplo: Ajax FC da
Vila Rica ou Grêmio Família 11 do Jardim Rincão (o que justifica a expressão “vilas e
jardins”). Contudo, muitos times e clubes se auto-identificam pelo nome do próprio
Distrito Municipal, por exemplo: Viracopos FC de Pirituba ou Danúbio da Freguesia do
Ó. Nesses casos, na ausência de uma localização precisa da respectiva quebrada,
adotou-se o critério de identificar os próprios Distritos Municipais, a partir do ponto de
localização destes no software de georreferenciamento.
Ademais, ressalta-se que os mapas temáticos relacionados às Copas e aos
Festivais, por possuírem quantidade numerosa de participantes, incorreram na
sobreposição de times e clubes pertencentes à mesma quebrada. Também foram
recorrentes as situações em que parte das equipes pertenciam a outros municípios,
tanto da Região Metropolitana de São Paulo quanto do Interior. Nesses casos, tais
informações foram suprimidas das representações da capital paulista e, em
determinadas situações, acrescidas em outros mapas temáticos ou legendas. Em suma,
em termos quantitativos, as localizações indicadas nos mapas não correspondem
34
Além disso, frente ao contexto de pandemia que se estende desde março de 2020 no Brasil, que levou
a alterações na organização das atividades dos clubes sociais e agremiações varzeanas, optou-se por
trabalhar, principalmente para os mapeamentos georreferenciados, com dados relativos ao ano de 2019,
período anterior à interrupção das práticas cotidianas observada durante o período mais gido da
quarentena. Contudo, algumas situações e dinâmicas puderam ser atualizadas com dados coletados a
partir dos contatos travados com interlocutores ao longo de novembro e dezembro de 2021.
35
O entendimento de quebrada, mencionado no parágrafo, remete a uma dimensão do território
periférico (RAIMUNDO, 2017) a qual o sujeito ou grupo possui vínculo afetivo e identitário, podendo ser
dialogada, grosso modo, com o conceito de bairro. Vale destacar a maleabilidade conceitual que a noção
de quebrada oferece para pensar a sociabilidade urbana, tanto como referência à particularidade de uma
localidade (“a sua quebrada”) quanto a uma concepção alargada de periferia. Uma singularização que
sintetiza duas noções de quebrada: na primeira valoriza-se o bairro de origem e uma rede de relações
mais particular com a qual se identifica; na segunda, uma ampliação da rede de relações para toda a
periferia, sem territorialidade específica, que assume um pertencimento a regiões pobres e periféricas
(PEREIRA, 2010).
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integralmente às apresentadas nos textos e tabulações do estudo. Contudo, trata-se de
condição minoritária e que não compromete a análise possibilitada pelas cartografias.