https://doi.org/10.46551/issn2179-6807v28n1p104-121
Vol. 28, n. 1, jan/jun, 2022
ISSN: 2179-6807 (online)
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A IMPORTÂNCIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA PARA A POPULAÇÃO NEGRA
DE SÃO PAULO (SP)
Roberta Pereira da Silva
1
Aprovado em: 13/08/2022
Resumo: O presente artigo apresenta o futebol de várzea da cidade de São Paulo, a partir da
história do Negritude Futebol Clube, time criado na década de 1980, construído prioritariamente
por homens e mulheres negras, que ocuparam o espaço do recém-inaugurado Conjunto
Habitacional nomeado Cohab I. O texto articula o desenvolvimento do futebol de várzea com a
organização da juventude negra, que foi capaz de fundar o MNU Movimento Negro Unificado,
e ao mesmo tempo apresentou diversas formas de resistência entre elas os bailes e o futebol,
tão importantes para a demarcação da identidade racial e o combate ao racismo. Articulando
passado e presente, o texto demonstra como a organização do futebol de várzea pode ser uma
possibilidade democratizante frente aos processos de “arenização” do futebol.
Palavras-chave: Futebol de Várzea. Racismo. Organização Negra. Negritude. Periferias.
THE IMPORTANCE OF VARZEA FOOTBALL FOR THE BLACK POPULATION OF SÃO PAULO (SP)
Abstract: This article presents the várzea soccer in the City of São Paulo, based on the history of
Negritude Futebol Clube, team created in the 1980s, built primarily by black men and women,
who occupied the space of the recently opened Housing Complex named Cohab. I. The text
articulated the development of várzea soccer with the organization of black youth, which was
able to found the MNU Movimento Negro Unificado, and at the same time presented different
forms of resistance, including dances and soccer, so important for the demarcation of racial
identity and the fight against racism. Articulating past and present, the text demonstrates how
the organization of várzea soccer can be a democratizing possibility in the face of the processes
of elitization of football.
Keywords: Várzea Football. Racism. Black Organization. Negritude. Periphery.
LA IMPORTANCIA DEL FÚTBOL DEL VÁRZEA PARA LA POBLACIÓN NEGRA DE SÃO PAULO (SP)
Resumen: Este artículo presenta el fútbol del várzea en la ciudad de São Paulo, a partir de la
historia de Negritud Fútbol Club, un equipo creado en la década de 1980. Compuesto
prioritariamente por hombres y mujeres negras, que ocuparon el espacio del recién inaugurado
Complejo Habitacional nombrado Cohab I. El texto articula el desarrollo del fútbol del várzea
con la organización de la juventud negra, que logró fundar el MNU Movimiento Negro
Unificado y, a la vez, presentó diferentes formas de resistencia, entre ellas los bailes y el fútbol,
1
Doutoranda pelo programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC SP, pesquisadora sobre futebol
de várzea e racismo no futebol, pertencente a equipe de formação do Observatório da Discriminação
Racial no Futebol e assistente social. https://orcid.org/0000-0001-7886-4552.
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tan importantes para la demarcación de la identidad racial y la lucha contra el racismo. Al
mezclar pasado y presente, el texto demuestra cómo la organización del fútbol del várzea puede
ser una posibilidad democratizadora ante los procesos de elitización del fútbol.
Palabras-clave: Fútbol del Várzea. Racismo. Organización Negra. Negritude. Periferias.
INTRODUÇÃO
Fogos, festa e batuque, parece um grande carnaval, mas é futebol. A prática
esportiva dos pés foi assunto privilegiado nas crônicas de Lima Barreto, que antevia a
popularização do futebol no início dos anos 1920, e é justamente nesse período que
o futebol alegre, democrático e popular se desenvolve nas protoformas do que
chamaríamos de campo de futebol. Na cidade de São Paulo, às margens do rio Tietê, se
formavam diversas equipes, compostas prioritariamente de imigrantes empobrecidos e
trabalhadores brasileiros, entre eles a população negra recém liberta, que por diversos
motivos ocupavam as margens do rio. As atividades desenvolvidas iam além da prática
dos pés, nas palavras de Diana Mendes:
Assim as pescarias, os passeios, os piqueniques, os banhos, a lavagem de
roupa e utensílios domésticos, e a coleta de areia e pedregulho para o uso
nas olarias dos arredores, próprias do cotidiano da cidade no século XVIII,
adentram os primeiros anos do século XX. (SILVA, 2016, p.40).
Ou seja, apesar de haver poucos estudos, tanto sobre o futebol de várzea como
sobre a forma como a população negra se desenvolveu na cidade de São Paulo,
encontramos produções que demonstram, naquele período, uma efervescência de
diversos tipos de organização da população negra, seja via a prática de esportes, dentre
eles o futebol, seja por meio da música (carnaval) ou nos chamados quilombos urbanos
2
.
Importante destacar, inclusive, que a conotação pejorativa que foi atribuída à palavra
várzea, pode ter correspondência a este período. A região sudeste, particularmente a
cidade de São Paulo e as cidades do interior do estado, por volta de 1850, passou a
receber mão de obra escravizada com o aumento da produção de café. O período foi
marcado pela proibição internacional do tráfico negreiro, principalmente para os
estados do norte e nordeste do país. Período histórico nominado por Moura (2019) de
2
Ver Domingues (2019) e Castro (2008).
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escravismo tardio. A região nordeste, apropriada das estruturas de compra e venda de
pessoas escravizadas, passa a comercializar internamente os corpos negros. Essa mão
de obra seria utilizada tanto nas lavouras de café como nas funções urbanas da cidade
que se gestava. As atividades de âmbito doméstico seriam realizadas pelas mulheres,
que se mantinham na atividade mesmo após a abolição. Além disso, as atividades de
transporte de carga no entorno da linha férrea e as atividades agrícolas seriam quase
que exclusivamente realizadas pela mão de obra escravizada.
Com o advento da empreitada imigratória que se intensifica no pós-abolição,
acrescida a um projeto eugenista camuflado de modernizante, e o não acesso a políticas
de reparação, a população negra passa a necessitar, obrigatoriamente, de formas
diversas de organização para sua sobrevivência. Ao contrário do que a historiografia
hegemônica apresenta, principalmente através dos livros didáticos, a população
escravizada, desde o seu trajeto forçado às Américas, apresentou formas de resistência.
relatos de recusa à alimentação durante a viagem no navio negreiro, suicídios e fugas
na chegada às terras colonizadas (Moura, 2020). Além disso, a formação de quilombos,
rebeliões e revoltas foi fundamental para a implosão do sistema de produção escravista.
O que demonstra uma movimentação e formas de organização para a sobrevivência que
fortaleceram a sociabilidade e os mantiveram vivos.
Entretanto, é fundamental destacar que a organização da produção escravista e
o trato das pessoas escravizadas, reconhecidas e tratadas como objetos (meios de
produção e força de trabalho), consubstanciou a ideologia de que essa população seria
composta por seres humanos de menor valor (Moura, 2014). Homens e mulheres negras
seriam diretamente ligados ao natural, ao místico, ao sexual e ao irracional. Ideia de
classificação dos povos, desenvolvida pelos pensadores iluministas, fundamental a
legitimação do processo de escravização. Tal lógica garantiu que, mesmo após a abolição
(formal), não houvesse o reconhecimento de homens e mulheres negras como cidadãos.
Os “bons escravos” se tornaram maus cidadãos (MOURA, 2021).
Tudo isso para dizer que se a maioria da população que ocupava as margens dos
rios era formada por trabalhadores negros, logo seriam reconhecidas como um grupo
perigoso, sujo e ruim. Não o local onde estava essa população a várzea, mas, também,
suas práticas eram associadas a algo ruim, que destoava da modernidade pretendida e
espelhada na cultura europeia. O Brasil se pretendia branco, deste modo da medicina à
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sociologia, ou seja, a produção teórica, cultural, artística, e porque não esportiva, se
debruçavam em pensar um país que rompesse com o passado/presente africano e
indígena (GOES, 2018). Seja pelas teorizações eugênicas seja pela via culturalista, o
negro e o indígena deveriam desaparecer. Vejamos a Semana de Arte Moderna de 1922
na empreitada de pensar uma identidade nacional, os diversos seminários eugênicos
realizados sobre o comando de Roberto Kehl ou mesmo a disseminação das ideias
presentes em Casa-Grande & Senzala. Obviamente que a ideologia não se concretiza
sem a práxis cotidiana, sendo necessárias várias ações, entre elas a força pública, para
contenção do desenvolvimento de uma cultura que abarcasse as tradições indígenas e
africanas. Nesse caso, houve diversas legislações que proibiram a capoeira, o futebol
jogado por negros, a prática das religiões africanas, o acesso a cargos públicos, etc.
Dito isto, é fundamental compreender que, ao menos na cidade de São Paulo,
protagonista, de certa maneira, na formação do futebol brasileiro, ao mesmo tempo em
que se gestava o futebol que posteriormente foi considerado profissional e/ou “oficial”,
se desenvolvia o futebol nominado como futebol de várzea, prioritariamente jogado
pela população negra.
Quando a história do futebol é contada, privilegiam-se as cidades de São Paulo e
do Rio de Janeiro, como se no mesmo período não houvesse a prática em outros estados
(PINTO, 2020). Havendo, também, um equívoco quanto à cidade de São Paulo, sendo
reconhecido como futebol apenas aquele praticado por uma elite jovem e branca, que
supostamente copiava as tradições europeias. Nesse período, o futebol era amador,
sem trocas financeiras ou salários para seus praticantes. Se considerarmos apenas a
prática esportiva, não que se falar em diferença entre o futebol praticado pela elite
e o futebol praticado pela população negra. Então, ao fim e ao cabo, excluindo a bola de
couro, os uniformes e as chuteiras, o que diferenciava um futebol do outro era a cor e a
classe social a que o grupo pertencia. Tanto é que o futebol praticado na várzea, desde
aquela época, despertava de certo modo interesse nos times pertencentes à elite.
Quando um ou outro jogador se destacava, tão logo era convidado a compor esse ou
aquele time com maior abertura aos jogadores negros. A imprensa, principalmente os
jornais, foi fundamental na difusão de uma ideia que diferenciava o futebol praticado
por ricos e por pobres, atribuindo valores e denominações pejorativas e fundamentando
a discriminação contra os times negros e varzeanos (SILVA, 2016).
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O fundamental, nesse ponto, é que desde o início do futebol na cidade de São
Paulo, houve um protagonismo da população negra na sua formação e organização,
certamente pouco estudado e que merece pesquisas e produções teóricas. Porém, o
texto que se segue apresenta a organização da várzea paulistana nos meados dos anos
1980, numa reatualização dos primórdios da organização negra da cidade de São Paulo.
Um grupo de jovens negros formou o Negritude Futebol Clube e é sobre essa experiência
de organização que trataremos a seguir.
A BOLA, A RESISTÊNCIA E A ORGANIZAÇÃO: NEGRITUDE FUTEBOL CLUBE
Em 1980, seis jovens negros entraram em quadra, numa disputa informal, aos
finais de semana da COHAB Conjunto Habitacional nominada Cohab I, localizada na
Zona Leste da cidade de São Paulo, sendo uma das poucas atividades de lazer que
existiam no local. Os anos oitenta foram marcados pela força dos movimentos
populares. Em parceria com profissionais de saúde, as mulheres encamparam um
movimento que culminaria no Sistema Único de Saúde (SUS). Intitulado movimento de
saúde da zona leste, conquistou não a UBS do bairro, mas a lei 8080/90 (SADDER,
1988). Em 1979, nas escadarias do Teatro Municipal da Cidade de São Paulo, ocorria o
encontro que culminaria na criação do MNU Movimento Negro Unificado. Fora as
diversas pastorais que, junto aos movimentos populares, exigiam o essencial, como
moradia, alimentação, direitos básicos para crianças e adolescentes, etc.
É nesse turbilhão de mobilizações que se formou o Negritude Futebol Clube.
Obviamente, houve uma longa jornada entre a partida na quadra de cimento e a
formação do time de campo. Entretanto, alguns elementos dessa formação merecem
destaque. O primeiro, e talvez o mais importante deles, se refere à discussão das
relações étnico-raciais, presentes desde as primeiras ações do grupo. Não se tratava de
uma organização formal do movimento negro, tão pouco havia uma pauta
programática, entretanto, ao pensar o logo, as cores brancas, como forma de destacar
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a pele preta, e o nome do time, a identidade racial se fez presente. Negritude F.C. foi o
nome escolhido e um homem com o penteado black power
3
o logo.
Imagem Logo do Time acervo pessoal
A escolha não foi à toa, pois os seis jovens fundadores são negros e o irmão de
um deles era membro ativo do MNU – Movimento Negro Unificado. Os seis integrantes
se somaram a outras pessoas que auxiliam na formatação do time, dentre elas Cristina
4
,
figura fundamental tanto no que se refere às questões administrativas quanto para
colocar em pauta o debate racial. Em entrevista realizada em 2016, Cristina
5
enfatizou
que o grupo participava das reuniões organizadas pelas assistentes sociais vinculadas à
COHAB e que o tema principal dessas reuniões eram as expressões do racismo. Dado
que o racismo como expressão contínua e própria do cotidiano batia à porta dos jovens
também na prática do futebol.
3
O “modelo” de corte de cabelo em que negros e negras não utilizam produtos cosméticos para alisá-lo.
A expressão black power está para além de um penteado, trata-se de uma expressão do movimento negro
formado na década de 60, pela juventude negra norte-americana, que reivindicava direitos civis. Não
alisar o cabelo representava, naquele momento, uma forma de resistência. O movimento black power
influenciou a juventude negra no aspecto estético e musical, a referência também foi utilizada por
movimentos negros revolucionários, como autoafirmação identitária.
4
Maria Cristina Valim, assistente social, advogada, foi uma das primeiras moradoras da COHAB I na cidade
de São Paulo, aposentada pelo Tribunal de Justiça SP, foi por duas vezes presidente do Negritude F.C.
além de estar no clube desde a fundação. Cristina abriu caminhos para a participação das mulheres no
futebol de várzea e é figura fundamental quando se pensa a organização deste esporte na cidade de São
Paulo, com muita lucidez em relação aos desafios da várzea atualmente e da participação de mulheres,
Cristina faleceu enquanto eu escrevia este texto. Cristina PRESENTE.
5
Na pesquisa de Mestrado realizada em 2017, com financiamento da CAPES, no programa de Serviço
Social da PUC São Paulo, com título Campo de Terra Campo da Vida: interfaces das expressões cotidianas
as alternativas de resistência popular e o Negritude Futebol Clube, foram realizadas entrevistas abertas
com as/os fundadores do Negritude Futebol Clube.
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A escolha do nome e a identificação étnico-racial são de suma importância, ainda
mais porque em 1980 a maioria da população brasileira se identificava com cores
abstratas e o mais distante possível de uma identidade negra
6
.
No recenseamento de 1980, por exemplo, os não-brancos brasileiros, ao
serem inquiridos pelos pesquisadores do IBGE sobre a sua cor, responderam
que ela era: acastanhada, agalegada, alva, alva-escura, alvarenta, alva-
rosada, alvinha, amarelada [...] burro-quando-foge, cabocla, cabo verde, café
[...] verde, vermelha, além de outros que não declaram a cor. O total de cento
e trinta e seis cores bem demonstra como o brasileiro foge da sua realidade
étnica, da sua identidade, procurando, através de simbolismos de fuga,
situar-se o mais próximo possível do modelo tido como superior (MOURA,
2019 p.91).
Sem sede própria, a maioria dos jogos era realizada em outros campos da cidade
de São Paulo e se faziam comuns no trajeto ao campo situações de discriminação. Para
além de situações latentes de racismo no momento da partida, veja abaixo a fala de um
dos fundadores que chamaremos de Caju
7
:
Olha só o constrangimento, na copa no CMTC Clube, quando nós pegávamos
o ônibus com sacola, aquela negrada que era tudo alto na época, o pessoal
entrava assim olhava, mas já se distanciava, entendeu, e a gente sempre
manteve a nossa postura, independentemente de qualquer coisa, até
mesmo no CMTC Clube quando a gente foi jogar nossa senhora! o pessoal
torcia tudo contra, torcia contra porque todos nós éramos negros na época
(CAJU).
A presença predominante de negros e negras no time, não seria suficiente para
a afirmação da identidade racial, as diversas situações de racismo e o momento histórico
brasileiro, de abertura democrática e solidificação dos movimentos negros, além dos
elementos de sociabilidade espelhados nos E.U.A, como o corte de cabelo, a valorização
da beleza negra e os bailes, foram fundamentais para que até os dias atuais o time não
reconheça esse marcador, como seja reconhecido, na várzea como potência e
organização negra da cidade de São Paulo.
6
Destaco ainda que no bairro do Ipiranga já havia um time de várzea chamado Black Power do Ipiranga,
time organizado por negros. Na década de 1980 também foi formado o time Pioneer F.C., também com
referências negras.
7
Idem nota 4.
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Imagem Sede Negritude acervo pessoal
“Negritude Futebol Clube, fundado em 1980 por jovens negros moradores da COHAB I, consolidou-se
como importante time de futebol de várzea sediado aqui é ambiente de identificação étnica, de inclusão
e de autogestão no conjunto habitacional.” Memória Paulistana
Outro desafio dos organizadores foi a compra do uniforme. Todos eram muito
jovens, alguns deles ainda estudantes (SENAI). Apenas um tinha possibilidade de
financiamento - cheque. Assim, fizeram um acordo com a loja e a cada semana
resgatavam um cheque e pagavam as parcelas para aquisição do primeiro fardamento.
Para dirigir tecnicamente a equipe, o pai de um dos fundadores deixou a equipe Arthur
Alvin, fundada em 1932. Bastava, portanto, iniciar a participação nos campeonatos
varzeanos. Houve participação em diversos festivais e algumas copas, entre elas a Copa
Vigor
8
. Porém, o grande campeonato a ser disputado era o Desafio ao Galo
9
, para tanto
havia a necessidade de um registro formal do clube. Mais uma vez, a perversidade do
racismo à brasileira se mostrou presente. Os organizadores dão conta que foi negado o
registro do time com o nome Negritude, na justificativa de que a nominação poderia
trazer dissensões raciais. O time foi registrado como Alvinegro, para poder participar
das partidas. Somente alguns anos depois foi possível fazer o registro oficial do nome
Negritude F. C. Esta foi uma das diversas barreiras que o time enfrentou e de certa
maneira ainda enfrenta.
8
Campeonato organizado e financiado pela empresa Vigor de produtos alimentícios derivados do leite,
na década de 1980.
9
O campeonato era mantido e televisionado primeiramente pela TV Gazeta e depois pela Rede Record e
foi extinto em 1990. Tinha a seguinte configuração: o time ganhador era desafiado, o “Galo era
desafiado, as partidas iam ocorrendo ao longo do ano e os times que acumulavam mais “Galos”,
disputavam o “Super Galo”.
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Um time de várzea depende exclusivamente das contribuições dos seus
membros, doações e patrocínios de comércios locais. Como expressão do racismo: o
nome Negritude e a referência a líderes e frases de resistências do povo negro
estampados nas camisetas, dificultaram o acesso a patrocínios. Além disso, o time
somente conseguiu sua sede nos anos 2000, 20 anos após a sua formação. O Negritude
se consolidou no futebol de várzea, principalmente por sua organização. A ausência de
um campo próprio não foi impedimento para participar de diversos campeonatos, em
todas as categorias, bem como não impediu a criação da Copa Negritude. Com
realização anual, a Copa existe há mais de 20 anos e reúne times da capital e grande São
Paulo, a final deste campeonato chegou à marca de 10 mil espectadores em 2022.
No ano de 2017, a abertura da Copa foi realizada na Câmara Municipal de São
Paulo, ocupando um espaço em que, apesar de ser chamado de casa do povo, tem pouca
participação efetiva para além do voto. A simbologia deste lançamento é inestimável,
não atoa a maior parte dos presentes (dirigentes dos times participantes) eram negros,
homens moradores da periferia, que fazem o futebol respirar. Mais uma vez
demonstrando a aptidão da população negra em se organizar, mesmo sendo
subsumidos às mais perversas condições de vida.
As contradições presentes no cotidiano, imprimem simultaneamente tensões e
respostas. Apesar das diversas situações de racismo e discriminação relatadas, a equipe
resistiu às ofensivas, sendo um exemplo de organização negra. Além da luta pelo direito
à cidade (com a manutenção do campo, mesmo com as fortes investidas de
especulações imobiliárias), o direito ao lazer e ao esporte também se faz presente. A
barbárie em que vivem as populações periféricas faz com que os direitos ao esporte e
ao lazer sejam considerados em segundo plano, ou menos importantes frente às
necessidades básicas de sobrevivência. Entretanto, a organização do futebol de várzea
abre uma fissura nesse entendimento e, mesmo que de forma precária, aponta para
essa necessidade.
O grupo desenvolve, ainda, uma escola permanente de futebol gratuita, para
crianças e adolescentes que compõem a categoria de base do clube. Além do time
principal, que disputa a categoria Sport, há times com jogadores entre 40 e 60 anos.
A identidade étnico-racial e a forma de organização do futebol de várzea,
principalmente a organização do Negritude F.C., tem despertado interesse de
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pesquisadores, jornalistas, entre outros, em pensar um futebol mais democrático. É
nítido também entre os adolescentes que participam das categorias de base da equipe
a formação da identidade racial. Quando realizadas entrevistas com os referidos
jogadores, lhes foi perguntado o quesito raça-cor e, prontamente, a maioria dos
entrevistados afirmavam serem negros (pretos e pardos), com convicção e valorização
na autodeclaração.
Outra experiência importante é a participação de jogadores do continente
africano, que procuram compor a equipe e assim conseguir o visto de permanência no
Brasil. É possível identificar que a procura do time não se dá de forma aleatória, mas há
uma real identificação e vislumbre de possibilidade de acolhida. Dessa forma, a
afirmação do marcador étnico-racial pelo time, configura um espaço que valoriza a
população negra e é capaz de romper com a lógica da chamada “democracia racial” que
tende a compreender a população brasileira como mestiça, fazendo com que se apague
as contribuições e valores dos povos originários, e reproduzindo a suposta inferioridade
das populações negras e indígenas. A agremiação, portanto, sem ter ideia do potencial
agregador, vem proporcionando um espaço de sociabilidade e reflexão para além das
quatro linhas.
A EXPERIÊNCIA DEMOCRÁTICA FRENTE À IDEOLOGIA DE ARENIZAÇÃO DO FUTEBOL
BRASILEIRO
O termo “futebol varzeano”, como elucidado no início deste texto, surge de
forma pejorativa e ruim, entretanto, seus praticantes assumem a nominação. Com a
segregação socioespacial realizada na cidade de São Paulo em meados dos anos 1940,
as populações que viviam nos arredores do rio Tietê e bairros adjacentes foram expulsas
do centro da cidade. O aumento dos aluguéis e uma nova formatação de cidade fez com
que os grupos populacionais empobrecidos migrassem para as periferias de São Paulo
(ROLNIK, 1989), na mala o futebol de várzea se distancia dos rios da cidade e se instala
nos terrenos baldios, presentes em fartura nos bairros que se formavam.
O futebol de várzea foi se configurando, criando regras, formas de organização,
campeonatos periódicos, ou seja, por mais que se pareça com o futebol que se
profissionalizou, não se trata de uma mera imitação. Antes disso, o futebol de várzea