https://doi.org/10.46551/issn2179-6807v27n2p112-117
Vol. 27, n. 2, jul/dez, 2021
ISSN: 2179-6807 (online)
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RESENHA
EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DE LIBERDADE
FREIRE, Paulo. [1967]. Educação como Prática de Liberdade. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra:
1975.
Leandro Luciano Silva Ravnjak
1
Recebido em: 05/10/2021
Aprovado em: 15/12/2021
A desesperança das sociedades alienadas
passa a ser substituída por esperança,
quando começam a se ver com os seus
próprios olhos e se tornam capazes de
projetar (FREIRE, 1967).
APRESENTAÇÃO
Poderia ter lançado mão na epígrafe do tão famoso fragmento da obra em
comento, “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem, mas aqui
aproveito para redimir-me pela não citação, mas não arrependo-me pela epígrafe
registrada.
Também, pode-se questionar a opção pela obra, sendo que, neste centenário do
nascimento de Paulo Freire, tendo como grande destaque a ‘Pedagogia do Oprimido’ o
resenhista opta pela “Educação como prática da Liberdade”.
Pois bem, redimido pela epígrafe, justifico a escolha pela obra.
No Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Estadual de
Montes Claros, na disciplina ‘Tendências do Pensamento Educacional’ promovemos, o
1
Advogado. Professor Universitário. Doutor em Educação pela FAE/UFMG. Docente do Curso de Direito
da Universidade Estadual de Montes Claros - UNIMONTES. E-mail: leandro.silva@unimontes.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-8903-6442.
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Doutor Heiberle Horácio e eu, o encontro dos mestrandos com Paulo Freire e outros
teóricos que, em nossa concepção, identificamos como tendências do pensamento
educacional. Em especial sobre Freire, além da Educação como Prática da Liberdade,
promovemos as aproximações também com a Pedagogia do Oprimido.
Mas, a informação alhures não é a única razão para a eleição da Educação como
Prática da Liberdade como obra a ser resenhada, o que provoca a revitalização deste
texto pode ser o contexto brasileiro em que deflagrou-se sua produção, a ambiguidade
do conceito de liberdade no interior da obra, e o significado do texto para a trajetória
autor Paulo Freire.
Assim, como proposta de resenha, espera-se que este texto possa provocar o
sentimento de necessidade de leitura da Educação como Prática da Liberdade, e
compreender seu significado para a educação brasileira.
A EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE
O texto em comento teve sua primeira edição publicada pela Editora Paz e Terra,
no ano de 1967, aproximadamente 4 anos após partir para o exílio.
A versão da obra que serve para este texto, data de 1975, nomeada como
edição, pela mesma editora Paz e Terra. Conta com um texto de apresentação intitulado
Educação e Política, reflexões sociológicas sobre uma pedagogia da liberdade, assinado
por Francisco C. Weffort. Conta ainda com uma abertura cultural “Canção para os
Fonemas da Alegria” de Thiago Mello. Aliás, cultural que representa muito bem o que o
leitor encontrará no texto, em especial nas páginas finais, colocadas como apêndice, um
rico conjunto de quadros em grafite assinados por Vicente de Abreu, e que
representavam as situações existenciais para os ciclos de cultura.
Segue o poema, um breve texto, redigido pelo próprio Paulo Freire, que recebe
o título de Esclarecimento, datado de 1965, e que expõe as inquietações relacionadas
ao contexto da obra, explica o autor: “O esforço educativo que desenvolveu o Autor e
que pretende expor neste ensaio, ainda que tenha validade em outros espaços, e em
outro tempo, foi todo marcado pelas condições especiais da sociedade brasileira”.
(p.35).
E acrescenta Paulo Freire,
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Na medida em que deixam em cada homem a sombra da opressão que o
esmaga. Expulsar esta sombra pela conscientização é uma das fundamentais
tarefas de uma educação realmente libertadora e por isso respeitadora do
homem como pessoa. (p.37)
Os esclarecimentos prestados por Paulo Freire também deixam claro os motivos
de sua perseguição e de seu exílio, motivos que revitalizaremos adiante.
Além dos textos preliminares acima mencionados, a Educação como Prática de
Liberdade conta, ainda, com quatro capítulos, A Sociedade Brasileira em Transição,
Sociedade Fechada e Inexperiência Democrática, Educação versus Massificação,
Educação e Conscientização, compõe o texto o Apêndice já mencionado.
A Educação como Prática da Liberdade, pode ser considerado o texto germinal
para toda a produção Freiriana, não obstante ocupar boas páginas com a descrição do
método que o fez conhecido por alfabetizar, em 45 dias, 300 trabalhadores e
trabalhadoras, em uma das regiões com o menor Índice de Desenvolvimento Humano
do país, o conteúdo da obra vai além da prática pedagógica, evidencia que a educação
é um ato político e de emancipação humana.
Mas o desafio era hercúleo, uma vez que pelos idos de 1963, o país contava com
aproximadamente 4.000.000 crianças em idade escolar, sem escola, e com
aproximadamente 16.000.000 analfabetos, a partir da faixa etária de 14 anos.
Então, como chegar a estes sujeitos, desprovidos, não apenas do ato de ler e
escrever, mas com o jarro cheio de desesperança.
Pelo texto, transitam temas que aquecem os debates, ainda hoje, nas
universidades, em cursos de graduação e pós-graduação.
A preocupação com o ser social e do estar com o mundo permeiam a produção
da educação como prática da liberdade.
As relações que o homem trava no mundo com o mundo (pessoais,
impessoais, corpóreas e incorpóreas) apresentam uma ordem tal de
características que as distinguem totalmente dos puros contatos, típicos da
outra esfera animal. Entendemos que, para o homem, o mundo é uma
realidade objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É
fundamental, contudo, partirmos de que o homem, ser de relações e não só
de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo. Estar com o
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mundo resulta de sua abertura à realidade, que o faz ser o ente de relações
que é. (p.39)
Mais que isso, a atenção para que a educação fosse mesmo emancipatória e não
adestradora de uma população brasileira que apenas estava no mundo
Nossa preocupação, de resto difícil, era a captação dos novos anseios, como
a visão nova dos velhos temas que se consubstanciando, nos levariam a uma
“Sociedade aberta”, mas destorcendo-se, poderiam levar-nos a uma
sociedade de massas em que, descriticizado, quedaria o homem acomodado
e domesticado. (p. 47)
Parece que, em certa medida, a liberdade apresentada no título da obra reveste-
se de emancipação, por isso a ambiguidade suscitada na apresentação desta resenha,
ou seja, a reação que o método freiriano provoca nos sujeitos, apresenta-lhes o status
quo e lhes incita a uma nova realidade, não a partir das ilusões externas, mas, partindo
das intimidades do homem com o mundo e no mundo.
Daí, então, que para Paulo Freire, nesta obra, a educação a ser assumida pelo
educador, deveria ser crítica e criticizadora, capaz de armar o homem brasileiro contra
a força dos irracionalismos, de que era presa fácil. (p.86).
“Uma educação para o desenvolvimento e para a democracia”, (p. 87) [...] que
possibilitasse ao homem a discussão corajosa de sua problemática. Que o advertisse dos
perigos de seu tempo, para que, consciente deles, ganhasse a força e a coragem de lutar
ao invés de ser levado e arrastado à perdição de seu próprio ‘eu’ submetido às
prescrições alheias. (p.89/90)
Indica-se assim, que o ato de ler e escrever não encerrava-se em sim mesmo,
projetava-se para a tomada de consciência.
Parece que uma proposta de educação que se distanciasse do adestramento, por
si só, se apresentava como um risco à sociedade em transição e materializada pela
inexperiência democrática.
A alcunha de subversivo, marcou a trajetória de Paulo Freire e foi nesse contexto
que retira-se do pais, após os constrangimentos experimentados nos depoimentos em
inquérito policial-militar, pelos idos de 1964.
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A educação subversiva proposta pelo método de Paulo Freire, ganhou
centralidade nos círculos de cultura com a palavra geradora “trabalho”.
O homem fez o poço porque teve necessidade de água. E o fez na medida
em que, relacionando-se com o mundo fez dele objeto de seu conhecimento.
Submetendo-o, pelo trabalho, a um processo de transformação. Assim, fez a
casa, sua roupa, seus instrumentos de trabalho. A partir daí, se discute com
o grupo, em termos evidentemente simples, mas criticamente objetivos, as
relações entre os homens, que não pode ser de dominação nem de
transformação como as anteriores, mas de sujeitos. (p.124)
A partir da problematização da palavra trabalho e da revelação das relações
entre os sujeitos, em especial as de dominação que prevaleciam em Angicos de 1963,
foi que tomando consciência do seu status de dominado e, municiado com a leitura do
texto consolidado, a CLT de 1943, que os homens e mulheres de Angicos, reivindicaram
melhores condições de trabalho e salários, registrando-se após os círculos de cultura o
primeiro movimento grevista nesse sentido.
Não parece absurdo, então, que professores e professoras sejam provocados a
tornarem-se subversivos, que a encontra-se na educação, a possibilidade da
transformação, ou, pelo menos, possibilidade de escolher.
A proposta do presente texto, não é a descrição minuciosa do método freiriano
adotado em Angicos, isso porque, a ideia central desta resenha é provocar o leitor à
consulta e à leitura da obra, que além dos temas aqui pontuados, apresenta
transitoriedade por outros conceitos importantes para a compreensão da produção
teórica de Paulo Feire, o ser social, o materialismo histórico e a emancipação.
Por óbvio que as considerações aqui apresentadas não poderiam deixar de estar
carregadas de bagagens subjetivas do resenhista, a escolha dos trechos transcritos e as
possibilidades de diálogos, são costuradas a partir das leituras que acumulam-se ao
longo dos anos, tanto das obras de Paulo Freire quantos de outros autores.
Por fim, apesar dos defeitos deste resenhista, espera-se provocar a leitura e
estudo da Educação como Prática de Liberdade.
REFERÊNCIA
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