https://doi.org/10.46551/issn2179-6807v27n2p8-13
Vol. 27, n. 2, jul/dez, 2021
ISSN: 2179-6807 (online)
Revista Desenvolvimento Social, vol. 27, n. 2, jul/dez, 2021
PPGDS/Unimontes-MG
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ENTREVISTA
O INSTITUTO PAULO FREIRE: HISTÓRIA, AÇÕES, DESAFIOS E O
ESPERANÇAR DE UM MUNDO DIFERENTE
Ângela Maria Biz Rosa Antunes
1
Mônica Maria Teixeira Amorim
2
Recebido em: 13/10/2021
Aprovado em: 20/12/2021
O Instituto Paulo Freire (IPF) foi fundado em 1991 com a missão de “educar para
transformar”, dando seguimento e procurando reinventar o legado freiriano no
fomento à uma educação para emancipação, combatendo injustiças, discriminações,
violências, preconceitos, assim como a “exclusão e degradação das comunidades de
vida, com vistas à transformação social e ao fortalecimento da democracia participativa,
da ética e da garantia de direitos”
3
.
1
Doutora e mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP (FEUSP-2002 e 1997). Pesquisa sobre
gestão democrática da escola pública e sobre pedagogia da sustentabilidade, além de professora e
assessora educacional. Licenciada em Letras (1982), Pedagoga (1985). Participou como colaboradora dos
livros Paulo Freire: uma biobibliografia (Cortez, 1996), Educação de Jovens e Adultos: a experiência do
MOVA-SP (MEC/IPF, 1996) e Autonomia da Escola Princípios e Propostas (Cortez/IPF, 1997). É autora do
livro Aceita um conselho: como organizar os colegiados escolares (Editora Cortez, 2002). Foi professora
efetiva da rede estadual e municipal de ensino de São Paulo, bem como da rede privada por mais de dez
anos, tendo atuado no ensino fundamental, médio e cursos de suplência. Atualmente, é diretora
Pedagógica do Instituto Paulo Freire. E-mail: angela.bizantunes@paulofreire.org. ORCID:
http://orcid.org/0000-0003-4342-1043.
2
Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG (2013) e Mestre em Educação
pela mesma Instituição (2002). Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do
Norte de Minas (1989). É professora titular da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes. Tem
experiência como Pedagoga na Escola Pública Básica e como Docente na Educação Básica e Superior,
atuando especialmente na formação de profissionais professores. É coordenadora associada do Programa
de s-Graduação em Desenvolvimento Social/Unimontes desde dezembro de 2019. É, também, docente
permanente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social/Unimontes e do Programa de
Pós-Graduação em Educação/Unimontes. E-mail: monica.amorim@unimontes.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-3537-2686.
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O IPF cumpre um importante papel no campo da educação, notadamente da
educação popular, com projetos e ações diversas de formação de professores,
alfabetização de adultos, assessorias, pesquisas, dentre outras. Conta com uma equipe
diretora da qual faz parte a Diretora Pedagógica Ângela Biz Antunes, que gentilmente
nos cedeu essa entrevista para falar um pouco mais do IPF, de sua história, suas ações
e desafios.
Professora Mônica Amorim (PPGDS-Unimontes): Ângela, fale-nos um pouco do
processo de constituição do IPF. Em outras palavras, por que surgiu e em que contexto
surgiu?
Ângela Biz (IPF): O Instituto Paulo Freire surgiu a partir de uma ideia do próprio
Paulo Freire no dia 12 de abri de 1991, durante um encontro com alguns amigos, entre
eles, Moacir Gadotti, Carlos Alberto Torres e Pilar O'Cadiz, em Los Angeles, EUA.
Paulo Freire foi convidado a proferir uma conferência na Universidade da
Califórnia (UCLA). Empolgado e sensibilizado com o envolvimento dos educadores
presentes, destacou a importância da existência de um Instituto que pudesse
proporcionar o encontro de pessoas e instituições que pesquisassem ou trabalhassem
em torno dos mesmos princípios que fundamentam a sua pedagogia. Desejava reunir
pessoas e instituições que, movidas pelos mesmos sonhos, pudessem aprofundar suas
reflexões, melhorar suas práticas e se fortalecer na luta pela construção de um outro
mundo possível: com justiça social e igualdade de direitos.
Dessa forma, começaram os primeiros passos para a criação do Instituto Paulo
Freire, cuja fundação oficial veio a se dar em 1 de setembro de 1992.
Desde o início, Paulo Freire acompanhou todos os momentos da história do IPF:
apresentou nomes, participou da discussão dos Estatutos e da definição da linha básica
de atuação e, após sua fundação oficial, tomou parte nas principais decisões e contribuiu
sempre com suas valiosas e esclarecedoras reflexões sobre os projetos desenvolvidos.
O IPF se pretende um amplo, fecundo e generoso encontro de instituições, de
projetos, de sonhos e de pessoas que fertilizam o inusitado, que se querem homens e
mulheres sujeitos da história, portanto, seres condicionados, mas não determinados,
por isso, capazes de realizar a transformação social.
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Atualmente existem Institutos Paulo Freire presentes em 18 países ao redor do
mundo, independentes institucionalmente, mas orientados pelos mesmos princípios
éticos, políticos e pedagógicos. Localizam-se na Argentina, Alemanha, Áustria, Brasil,
Cabo Verde, Chile, China, Colômbia, Egito, Espanha, EUA, Índia, Inglaterra, Itália, Malta,
Peru, Portugal, República Dominicana e França.
Professora Mônica Amorim (PPGDS-Unimontes): Em se tratando da
organização do IPF, quais são suas principais ações?
Ângela Biz (IPF): Ao longo dos 30 anos de existência, desenvolvemos estudos e
pesquisas, oferecemos consultoria e/ou assessoria para a implantação de projetos de
alfabetização multimeios (aprendizagem móvel, ambientes digitais de aprendizagem),
implantação de Movimentos de Alfabetização (MOVA); realização de Reorientação
Curricular de EJA (Receja), de Educação Infantil (RECEI), de Ensino Fundamental (RECEF);
cursos e oficinas pedagógicas de formação inicial e educação continuada, presencial e a
distância; Seminários de Práticas; Encontro de Educandos da EJA, elaboramos subsídios
didático-pedagógicos na área de EJA (materiais impressos, como cadernos de formação
para educadores e educandos, materiais audiovisuais, etc.), formulação e implantação
de planos estaduais/municipais de Educação de Jovens e Adultos; Planejamento
Dialógico, Projeto Eco-Político-Pedagógico, Fortalecimento da Gestão Democrática,
Formação de familiares e comunidade escolar, Colegiados Escolares, Avaliação
Dialógica, Leitura do Mundo (diagnóstico da realidade do entorno da escola e da própria
escola, de forma participativa e dialógica para impactar no currículo), Sistema Municipal
de Educação, Plano de Educação Municipal, Avaliação Educacional Dialógica das redes
municipais de educação, Conferências Municipais de Educação, Encontros Nacionais e
Internacionais de Educação, Seminários de Práticas da Educação Infantil e do Ensino
Fundamental, Conferências Lúdicas com a participação ativa das crianças; pesquisas e
formação em Educação Popular, orientados pelos referenciais teórico-metodológicos
freirianos: Orçamento Participativo, Formação de Educadores Populares em Saúde,
Formação de Conselhos Gestores etc. Trabalhamos com a Pedagogia de ATER
(Assistência Técnica e Extensão Rural), com formação de jovens no campo, Política de
Assistência Social, elaboração de Planos de Assistência Social. Também desenvolvemos
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estudos, pesquisas e formação em Educação em Direitos Humanos; assessoramos a
elaboração de Planos Municipais e Estaduais de Educação em Direitos Humanos.
Acolhemos, no Centro de Referência Paulo Freire (CRPF), espaço de estudo,
pesquisa e documentação de e sobre Paulo Freire, o Acervo de Paulo Freire, com
bibliotecas que pertenceram a Paulo Freire e inúmeros registros audiovisuais,
manuscritos e outros documentos disponíveis ao público interessado.
Estamos, ainda, vinculados à UniFreire (Universitas Paulo Freire), que tem por
missão interconectar a comunidade freiriana pelo mundo por meio da articulação de
cátedras, institutos e outros centros nacionais e internacionais de tradição freiriana,
bem como desenvolver pesquisas e oferecer cursos, fortalecendo a perspectiva da
educação emancipadora.
Por meio da UniFreire, realizamos cursos pela EaD Freiriana, utilizando
ambientes de aprendizagem para viabilizar encontros formativos “a distância”, mas
cuidadosamente preocupados em manter a coerência de uma ação relacional, dialógica,
afetiva e participativa, sempre atenta à possibilidade de reinvenção do próprio legado
de Paulo Freire por todos os sujeitos participantes, considerando algumas
características específicas, dentre as quais, destacamos: Diálogo permanente com os
princípios da Pedagogia Freiriana; Cuidado com a linguagem utilizada; Relação dos/as
educadores/as e educandos/as durante o curso; Materiais pedagógicos abertos e
atualizados permanentemente; Matriz curricular e relação pedagógica
intertranscultural e intertransdisciplinar; Mobilização das múltiplas dimensões do
humano; EaD Freiriana conectada ao que se passa no mundo; Planejamento dialógico
do curso; Formação inicial e processual das equipes de cada curso; Transparência na
aferição de créditos e na certificação.
Também por meio da Unifreire, mantemos o Fórum Paulo Freire. Estrutura-se
em duas dimensões: presencialmente, nos encontros internacionais a cada biênio, e
virtualmente, por meio de diálogos na rede social da UniFreire e de publicações da
Revista Unifreire. A cada encontro, reunimos pessoas e organizações que desenvolvem
trabalhos e pesquisas na perspectiva da filosofia freiriana para compartilhar
experiências, reflexões e propostas, tendo como objetivo fortalecer o movimento por
uma outra educação possível.
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O IPF também integra várias redes e articulações, entre elas, a Rede Brasileira de
Educação em Direitos Humanos, o Comitê Estadual de Direitos Humanos, o Conselho de
Educação Popular da América latina e Caribe (CEAAL), a Articulação Brasileira do Pacto
Educativo Global, a Rede Internacional de Educação Popular Diálogos com África, o
Fórum Mundial de Educação, o Fórum Social Mundial.
Professora Mônica Amorim (PPGDS-Unimontes): Sobre os desafios vividos pelo
IPF hoje, o que você destacaria?
Ângela Biz (IPF): Um dos grandes desafios, tem sido manter viva a própria
instituição. O IPF é uma ONG que sobrevive das ações que realiza. Nos tempos de tantos
ataques a Paulo Freire, o IPF também foi ameaçado e perseguido. A conjuntura atual
tem exigido de todos/as nós movimentos de resistência e luta permanente. Sabemos
que atacar Paulo Freire é atacar tudo que ele representa: a democracia, os direitos
humanos, a educação pública popular e democrática, a justiça social. Continuamos na
defesa do legado freiriano, divulgando seu pensamento, mantendo o Centro de
Referência Paulo Freire, democratizando o acesso ao seu Acervo, e na luta pelas causas
com as quais ele se comprometeu. Defender e lutar pela democracia, direito à educação,
justiça social, direitos humanos tem sido nossas prioridades.
Professora Mônica Amorim (PPGDS-Unimontes): A sua experiência no IPF
certamente lhe faz esperançar um mundo diferente. Fale-nos um pouco disso.
Ângela Biz (IPF): Estar no IPF, em especial, no Centro de Referência Paulo Freire,
e ter a oportunidade de receber pessoas que vêm dos mais diferentes lugares, atuando
em diferentes áreas do conhecimento, desenvolvendo projetos no campo da saúde, do
meio ambiente, da arquitetura, das artes (música, dança, teatro...), conhecer tantas
pessoas, tantas ações de resistência, luta e construção de um outro mundo possível,
referenciadas no pensamento de Paulo Freire é algo que movimenta nossa esperança.
Não estamos sozinhos. resistência e luta em muitos lugares. Estar no IPF é ter a
oportunidade de se conectar com essa rede de pessoas e instituições que
verdadeiramente nos mostram que o "mundo não é; o mundo está sendo" e pode ser