Literatura escrita por mulheres na América Latina produção e circulação de obras de escritoras latino-americanas

2020-06-09

Uma revisitação à história literária explicita que grande parte dos textos produzidos por mulheres ficaram praticaram desconhecidos ou mantidos à sombra     dos escritores homens. Ainda que tenham materializados textos de reconhecido valor, muitas mulheres escritoras e suas obras, salvo raras exceções, não mereceram sequer menções nos compêndios, antologias e tratados historiográficos da literatura.

A história literária, da maneira como vem sendo escrita e ensinada até hoje na sociedade ocidental moderna, constitui um fenômeno estranho e anacrônico. Um fenômeno que pode ser comparado com aquele da genealogia nas sociedades patriarcais do passado: primeiro, a sucessão cronológica de guerreiros heróicos; o outro, a sucessão de escritores brilhantes. Em ambos os casos, as mulheres, mesmo que tenham lutado com heroísmo ou escrito brilhantemente, foram eliminadas ou apresentadas como casos excepcionais”. (LEMAIRE, 1994, p. 58).

No intuito de possibilitar um amplo espectro de possibilidades de análises, discussões e debates sobre a mulher na literatura latino-americana, sua produção, as dificuldades editoriais, seu lugar na historiografia, dentre outros temas, esta chamada adota a expressão “literatura escrita por mulheres” consciente dos polêmicos debates que envolvem essa e outras denominações, a exemplo da “literatura feminina”, bem como quanto às muitas dobras conceituais surgidas nos estudos de gênero, que desde a célebre afirmativa de Simone de Beauvoir – “Não se nasce mulher, torna-se mulher" – às teorias empreendidas, dentre outras, por Gayle Rubin, Linda Nicholson, Julia Kristeva, Dominique Wittig, Teresa de Lauretis e Judith Butler que vêm, pouco a pouco, se avolumando e enriquecendo o debate.

Com as independências dos países latino-americanos no século XIX, o mercado editorial nas novas nações foi potencializado com o advento das repúblicas e, no caso do Brasil, com o Segundo Império, chegando a um patamar razoável nos mercados editoriais com o advento dos movimentos modernistas no século XX, embora minado pelas deficiências intrínsecas aos modelos de desenvolvimento econômico, o alto índice de analfabetismo e a precária distribuição de renda nas muitas nações da latina América, salvo raros períodos de melhor arejamento social. Nesse desigual contexto não é de se estranhar que a preferência pelo que publicar continuou a recair sobre títulos assinados por homens, como tradicionalmente usava-se fazer desde os períodos coloniais, uma tradição importada da cultura européia, diga-se de passagem.

Ainda assim, emergiram à cena cultural desde então escritoras, romancistas e poetisas do quilate de Maria Firmina dos Reis, Júlia Lopes de Almeida, Carolina Maria de Jesus, Maria José de Queiroz, Maria Benedita Bormann, Lúcia Miguel Pereira, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, dentre outras brasileiras, assim como Delmira Agustini e María Eugenia Vaz Ferreira, no Uruguai, Alfonsina Storni e Selva Almada, na Argentina, Gabriela Mistral, Isabel Allende, María Luisa Bombal e Paulina Flores no Chile, a venezuelana Teresa de la Parra, Teresa Cárdenas, em Cuba, Guadalupe Nettel, Laura Esquivel e Laia Jufresa, no México, para ficarmos nesses poucos exemplos de inegável qualidade literária, tenacidade e perseverança na superação dos preconceitos que rondam as suas participações em atividades que, velada ou explicitamente, são dificultadas ou mesmo interditas às mulheres. Muitas escritoras obtiveram pouca visibilizade na imprensa para suas obras, sujeitas ao descaso dos historiadores e estudiosos da literatura, o que fez por lançar valiosos trabalhos no vale do esquecimento, muitos desses só há pouco recuperados, possibilitando o reconhecimento de obras e autoras. E mesmo em se tratando de escritoras que conquistaram renome e reconhecimento nacional e internacional, com premiações em seus paises e traduções no exterior, ainda assim são pouco estudadas nos meios acadêmicos, como também pouco lidas no âmbito das comunidades latino-americanas em geral.

Na transição para o século XXI observa-se um significativo aumento da publicação de obras escritas por mulheres na América Latina. Esse fenômeno tem sido noticiado como “nuevo boom” ou “el otro boom”, só que agora protagonizado por mulheres.  Em artigo publicado no jornal El País, intitulado “El otro ‘boom’ latino-americano es femenino”, Paula Corroto (2017) considera relevante o aumento de publicações de obras assinadas por mulheres na América Latina, que têm recebido críticas favoráveis, sucesso editorial e premiações. Nesse mesmo artigo, a jornalista espanhola entrevista a escritora chilena Paulina Flores, que atribui o fato à maior abertura da política editorial que tem recebido com mais agrado obras de mulheres. Ainda assim, Laia Jufresa adverte que há muito a ser conquistado pois, segundo essa escritora mexicana, “el trabajo de las mujeres se publica, reseña y traduce aún muchísimo menos que el de los hombres”. Jufresa ainda esclarece que, curiosamente, os textos dessas escritoras podem até ser reconhecidos em seus países e na Espanha, mas são pouco difundidos nos demais países da América Latina.

Tendo em vista essa análise de contexto e a qualidade estética, humana e cultural de muitas dessas obras, considera-se a importância de dedicamos o segundo número de 2020 da Revista Araticum às interpretações e releituras das vozes das mulheres latino-americanas, pelo que os editores desta edição convidam mestres e doutores pesquisadores ao partilhamento e diálogo de seus estudos sobre essa produção e a circulação de obras de escritoras latino-americanas.